VENCENDO O AZUL


A HISTÓRIA DA INDÚSTRIA E TECNOLOGIA AERONÁUTICAS



            

a  fábrica nacional de motores 

 

   

A Fábrica Nacional de Motores nasceu nos marcos dos acordos firmados entre o Brasil e os Estados Unidos, segundo os quais o Brasil permitia a instalação de bases militares norte-americanas no Nordeste em troca de créditos e assistência técnica para a implantação da Companhia Siderúrgica Nacional e de outras indústrias.

 

 

O interventor do Estado do Rio de Janeiro, Amaral Peixoto, visita a Fábrica Nacional de Motores. Na foto, o primeiro motor aeronáutico fabricado em série no Brasil. Da esquerda para a direita, Guedes Muniz, Alzira Vargas do Amaral Peixoto e o interventor.

Fonte: Arquivo Guedes Muniz

 

 

Em 1939, o então Coronel Guedes Muniz convenceu o ministro da Viação e Obras Públicas, João Mendonça Lima, da viabilidade da criação de uma indústria de motores aeronáuticos no país. Muniz argumentava que uma fábrica dessa natureza trabalharia necessariamente com pequenas cadências de produção e que as dificuldades seriam muito menores do que as envolvidas com a produção de motores automotivos, que exigiram grandes escalas de produção. O mercado seria constituído pela incipiente indústria aeronáutica nacional e pela Força Aérea Brasileira , que utilizaria os motores para reposição em seus aviões.

Muniz identificava na industrialização a solução para os grandes problemas econômicos e sociais que o país enfrentava. Para que o Brasil vencesse “a miséria em que se debatia” seria preciso que se industrializasse. (1)  A constituição de uma indústria de mecânica de precisão contribuiria para esse objetivo maior, através da introdução no país de novas técnicas e do uso de máquinas que tornavam possível medir até um décimo de centésimo de milímetro, o que, em 1939, representaria um fato novo na paisagem industrial brasileira.

Convencido da exeqüibilidade do projeto e também que a  implantação de uma indústria mecânica de precisão representava uma oportunidade do país fabricar grande quantidade de peças até então importadas, Mendonça Lima promoveu um encontro entre Guedes Muniz e Getúlio Vargas. Na reunião, ficou acertado que Muniz realizaria um estudo de viabilidade. (2)

Nessa mesma época, mas por outros motivos, Muniz viajou aos Estados Unidos, mantendo contatos com as duas fábricas norte-americanas de motores aeronáuticos: a Wright e a Pratt Whitney. Ambas foram consultadas sobre a viabilidade e o interesse de auxiliarem o país  na constituição de uma fábrica de motores aeronáuticos no Brasil. A Wright manifestou interesse, afirmando que qualquer operário que realizasse cursos de três a seis semanas de duração seria capaz de manejar qualquer das máquinas envolvidas na produção dos motores.

Muniz foi designado formalmente, em maio de 1939, para negociar com a Wright um contrato de licenciamento de tecnologia e assistência técnica para a produção de motores aeronáuticos. O modelo de motor escolhido era o de 450 cavalos de potência, que poderia ser utilizado em aviões de treinamento, aeronaves empregadas no correio aéreo, em bimotores executivos e outros aparelhos.

Mas os investimentos necessários eram consideráveis e possivelmente teria dificultado ou impedido a construção da fábrica, caso ela não tivesse sido incluída nos acordos firmados entre Brasil e Estados Unidos para a implantação de bases militares norte-americanas no Nordeste.Segundo a Lei de Empréstimo e Arrendamento, conhecida como Lend and Lease, promulgada nos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial, material bélico ou equipamento para indústrias estratégicas poderiam ser fornecidos a países aliados, que pagariam por eles apenas um terço de seu valor e somente iniciando as amortizações a partir do final da guerra.

Em 1942, o ministro da Fazenda, Souza Costa, viajou aos Estados Unidos para negociar um amplo acordo sob a égide do Lend and Lease. A Fábrica Nacional de Motores não constava na agenda de negociações, mas Guedes Muniz procurou o ministro brasileiro em Nova York, solicitando a inclusão do projeto nos entendimento que seriam mantidos. Consultado, Getúlio Vargas concordou com a iniciativa e dessa forma ficou acertado um  crédito de dois milhões de dólares do Import and Export Bank para compra de máquinas e equipamentos para a constituição da FNM.

A Fábrica foi construída ao longo dos anos da guerra. O local escolhido foi a Baixada Fluminense, nas proximidades da rodovia que liga o Rio de Janeiro a Petrópolis. O projeto era de grandes dimensões para a época e dispunha  de recursos incomuns naquele tempo, como ar condicionado central no pavilhão principal da fábrica, por exigência técnica de temperatura constante para a fabricação de peças e motores.

Os dois primeiros motores aeronáuticos fabricados no país foram postos em funcionamento por Dutra, pessoalmente, em 1º de abril de 1946, no banco de provas da FNM. Mas em maio realizava-se uma reunião dos ministros da Fazenda, Aeronáutica, Viação e Obras Públicas e do diretor da Fábrica. Nela, o ministro da Aeronáutica declarava possuir um estoque de 180  motores Wright semelhantes aos que seriam produzidos pela FNM. A notícia soava com uma sentença de morte contra a fábrica que apenas começava a produzir. Diante do fato e sem vontade de dar curso ao projeto, Dutra determinou a suspensão de motores  aeronáuticos pela empresa, lançando-a numa grave crise.

Para Muniz, a compra de motores aeronáuticos, no mesmo momento em que se montava uma indústria no Brasil para produzi-los, explicava-se pela falta de planejamento que conspirava contra o “anseio de liberação nacional”.(3) Em 19 de agosto voava um aparelho Vultée BF-15, da FAB, equipado com um motor construído pela FNM. E, no ano seguinte, a FNM entregava à FAB nove aviões Vultée, equipados com os motores Wright que chegaram a ser produzidos pela FNM.

Mas para aqueles que haviam concebido a fábrica, seu papel não se esgotava na produção de motores, produção essa que se tornava inviável pela redução das atividades ou fechamento das incipientes industriais aeronáuticas no Brasil, bem como pela disponibilidade de motores importados. Ao contrário, a fabricação serviria para introduzir novos processos, com a tecnologia de fundição de alumínio para a fabricação de peças de motores, novas tecnologias de tratamento térmico e outras técnicas metalúrgicas.

A empresa se constituiria, assim, num centro irradiador da avançada mecânica de precisão, fomentando o desenvolvimento de uma indústria de motores para tratores e caminhões. As máquinas e a fábrica seriam flexíveis o suficiente para fabricar compressores, geladeiras e caminhões, sem que seus equipamentos originais tivessem de ser abandonados.

Para que o país não perdesse uma indústria de alto valor estratégico, Muniz procurava fabricar outros bens, seguindo, segundo ele, os passos de outras fábricas de motores dos Estados Unidos e Inglaterra que também teriam vivido problemas análogos de reconversão no pós-guerra. Dessa forma a empresa produziu fusos para a indústria têxtil, compressores, peças sobressalentes para ferrovias e para a própria aeronáutica. A FNM chegou também a projetar e construir um protótipo de um trator.

 

Para Muniz, o fim da guerra, a falta de uma preparação política e psicológica favorável à industrialização do país, a existência de estoques formados por sobras de guerra e, principalmente, a falta de um “programa geral de fabricação aeronáutica que garantisse um incondicional apoio à nascente indústria aeronáutica nacional”(4) somaram-se para impedir que a FNM conseguisse se consolidar.

 

Para além das preocupações estritamente econômicas, o projeto da FNM refletia também uma certa utopia industrialista presente no pensamento de Guedes Muniz. Para ele, o próprio desenvolvimento industrial se encarregaria de resolver as mazelas sociais inerentes ao subdesenvolvimento e ao predomínio das elites. Nas suas próprias palavras:

 

“Os que acreditam na felicidade humana, ou melhor, os que só são felizes quando todos são venturosos, quando não mais existir miséria  e fome para alguns que sejam; os que esperam uma evolução social mais digna, bem podem compreender porque consideramos sempre, como elementos indispensáveis da produção, tão importante um quanto o outro, as duas máquinas principais que nela trabalham – a máquina operatriz, que se compra a dinheiro,  a máquina humana que jamais poderá ser comparada. Por isso, sempre existiu no plano geral elaborado para a Fábrica de Motores e Tratores, o projeto de construção de uma cidade operária, longe das super-povoadas capitais, protegidas por grandes terrenos cultivados, cercada de todos os recursos de uma agricultura mecanizada, e de pecuária cientificamente estabelecida, cidade moderna onde a vida humana possa ter  a possibilidade de se expandir com alegria, conforto, segurança e dignidade”.

 

“Esse programa tinha que nos levar, como nos levou, a procurar grandes áreas disponíveis, ao nível do mar por uma exigência técnica do ensaio do motor de aviação, terras que fossem acessíveis e baratas, com água abundante, energia elétrica, estrada de ferro e de rodagem, como possuem as escolhidas, e que puderam ser obtidas a preços módicos, pois  eram pantanais praticamente abandonados, em terras invadidas pela malária, transmitida pelos mosquitos dos pantanais vizinhos”.

 

“A Cidade dos Motores, como já foi batizada, deverá ser construída com a assistência financeira do instituto mais interessado, que é o dos industriários, conforme próprias expressões do Exmo. Senhor Presidente da República, e seu financiamento deverá ser amortizado de tal maneira a não agravar o custo da produção da Fábrica de Motores, conforme demonstramos no estudo apresentado ao I.A.P.I.”.

 

“Essa cidade operária representará um tal fator de progresso no estabelecimento de um equilíbrio social justo, que com esse progresso, quando generalizado, desaparecerão os demagogos de quaisquer cores, e por certo eles hão de encontrar dificuldade sutis para sua construção e argumentos hábeis contra sua realização”

 

“O Governo que a construir, porém, terá iniciado uma nova demonstração de capacidade humana governamental, na solução de tais problemas por métodos humanos, justos e simplesmente evolutivos, sem recursos a revoluções, sangueiras, demagogias ou cópias de envelhecidos exemplos de outras terras”.

 

“Pode-se resolver o problema da felicidade, da saúde e bem estar do operário e das massas trabalhadoras brasileiras, sem ser necessário o recurso à ditadura de qualquer classe, nem mesmo à ditadura proletária”.

 

“O operário brasileiro, aliás, não quer saber disso, ele deseja apenas viver como os outros homens, em casa decente, com saúde, bem alimentado e bem vestido”.

 

“Isso só se conseguirá industrializando o Brasil e construindo-se para essa indústria, cidades operárias dignas desse nome”.

 

“Para isso obter, torna-se, porém, necessário agir com coragem, olhando-se para o futuro, para o que será o Brasil de amanhã. Multiplicando-se apenas favelas pobres ou disfarçadas, jamais se construirá uma grande Nação”.(5)  

 

 

Aparelho Vultée da FAB decolando em 1945 com motor Wright, fabricado sob licença pela Fabrica Nacional de Motores.

Fonte: Arquivo Guedes Muniz

 

 

E Muniz tentava edificar a “Cidade dos Motores”, dedicando 20 alqueires para a produção de gêneros e de leite, mantendo mais de 300 cabeças de gado e cerca de 9.000 aves para consumo local. Ao mesmo tempo, dava  seqüência às obras de um hospital para 200 leitos, bem como de saneamento contra a malária e de pavimentação de estradas de acesso. A FNM chegou a contar com cerca de dois mil trabalhadores incluindo-se as atividades de construção da fábrica, de produção em obras de saneamento e atividades agrícolas.

Depois de operar em compasso de espera por cerca de três anos , a fábrica passou ao controle da empresa italiana Isotta Fraschini Spa, em janeiro de 1949, equipando-se para produzir caminhões que popularizaram em todo o país uma corruptela de seu nome original: Fenemê.


          Notas

 

(1)   MUNIZ, Antônio Guedes. Depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito sobre a venda da Fábrica nacional de Motores. Brasília, 18 de setembro de 1968.

(2)   MUNIZ, Antônio Guedes. Depoimento ao autor. Rio de Janeiro, 8 de setembro de 1983.
Ver em Depoimentos, Aeronáutica, neste site Vencendo o azul     

(3)   MUNIZ, Antônio Guedes. Depoimento à CPI sobre a venda da FNM. Op . cit. P. 7.

(4)   MUNIZ, Antônio Guedes. Relatório ao ministro da Viação e Obras Públicas. 20 de janeiro de 1947. Arquivo Guedes Muniz.

(5)   MUNIZ, Antônio Guedes. Relatório ao ministro da Viação e Obras Públicas. 20 de janeiro de 1947. Arquivo Guedes Muniz.

 

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