a segunda guerra e as fábricas de Lagoa santa e FNM
Duas iniciativas industriais no campo aeronáutico devem ser analisadas no quadro das relações entre o Brasil e os Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial: a Fábrica de Lagoa Santa e a Fábrica Nacional de Motores.
O Brasil assumia grande importância estratégia para a defesa do continente. Por sua proximidade relativa com a África, o Nordeste brasileiro se constituía num provável alvo inicial de uma eventual invasão da América do Sul, ao mesmo tempo que era o local ideal para a partida de aeronaves que se dirigissem para a África desde o continente americano. A cidade de Natal apresentava grande interesse militar, podendo servir de base de apoio à travessia de aviões do Atlântico Sul e, no caso de uma eventual tentativa de invasão da América do Norte, num ponto estratégico para um possível ataque ao Canal do Panamá.
Por outro lado, a extensão territorial e as riquezas naturais do Brasil conferiam ao país uma importância especial dentre todos os países da América Latina. Por seu peso específico, o Brasil apresentava condições de liderar os demais países da América do Sul. Essa possibilidade assumia maior relevo diante da indisfarçável simpatia do governo argentino pelo Eixo.
Cerca de um mês após o ataque japonês a Pearl Harbor, e no momento em que os americanos desenvolviam um intenso esforço diplomático para obter dos países latino-americanos solidariedade aos Aliados, o presidente argentino Ramos Castillo declarava à imprensa que seu país jamais iria à guerra ou promoveria a ruptura de relações diplomáticas com o Eixo. Nesse contexto, para os Estados Unidos, as relações com o Brasil ganhavam maior significação política.
Em janeiro de 1942, realizou-se no Rio de Janeiro, a III Reunião de Consultas dos Ministros das Relações Exteriores das Repúblicas Americanas. Ao longo do encontro, os Estados Unidos tentaram obter um documento de rompimento coletivo de relações diplomáticas dos países latino-americanos com o Eixo. A Argentina, contudo, impedia que o projeto prosperasse e finalmente foi aprovada uma resolução recomendando aos países participantes da conferência que rompessem com a Alemanha, Itália e Japão. No entanto, na própria noite de encerramento da reunião, alguns países, entre eles o Brasil, anunciavam o rompimento com o Eixo.
O ministério
brasileiro dividia-se em duas correntes: uma delas francamente favorável ao
alinhamento do Brasil com os Aliados e outra favorável a uma posição de
neutralidade que, na verdade, expressava uma crença na vitória militar da
Alemanha, além de simpatias ideológicas para com o regime fascista. A primeira
corrente era liderada pelo ministro das Relações Exteriores, Oswaldo Aranha. A
Segunda delas tinha à frente o Chefe do Estado-Maior da Forças Armadas,
General Góis Monteiro.
Durante
os debates que precederam a tomada de posição brasileira, Góis Monteiro
enviou uma carta ao então ministro da Guerra, Eurico Dutra, afirmando que o
Brasil estava totalmente despreparado para enfrentar a guerra. A afirmação foi
endossada pelo próprio Ministro da Guerra em documento ao Presidente da
Republica. Dutra assinalava que o Brasil, no princípio de 1942, não possuía
mais do que uma centena de canhões sem munição. Dispunha de apenas 40 tanques
italianos e 10 norte-americanos, sendo que estes últimos igualmente sem munição.
Diante da fragilidade das Forças Armadas, Dutra propunha o adiamento do
rompimento de relações diplomáticas com o Eixo, alegando não ter condições
de garantir a integridade territorial do país.
O
Ministro da Aeronáutica, Salgado Filho, endossava essa posição ao afirmar que
a Força Aérea Brasileira contava com apenas 27 aparelhos Vultée, de combate.
Independente das motivações políticas e ideológicas do chefes militares e
ministros, o quadro de extrema fragilidade militar era real. Getúlio Vargas, de
seu lado, buscava negociar com os americanos não simplesmente o fornecimento de
armamento, mas principalmente a concessão de créditos e assistência técnica
para implantar as indústrias siderúrgica e bélica no Brasil.
Por
outro lado, o Conselho de Defesa Nacional dos Estado Unidos manifestava o
interesse norte-americano em importar minérios estratégicos do Brasil, como
manganês, quartzo, cromo, diamantes para aplicação industrial e outros.
Vargas, por sua vez, propunha aos americanos a troca desses minerais, além de
outras matérias-primas como borracha, por créditos e assistência técnica
para a implantação de projetos industriais, além de armamentos (1)
A posição
do governo brasileiro favorável aos Aliados devia-se a vários fatores. A
Europa conflagrada interrompera suas importações do Brasil, e ao país,
produtor de café e algumas matérias-primas, restava o grande mercado
norte-americano. Em novembro de 1940, 14 países produtores de café e os
Estados Unidos assinaram um acordo segundo os americanos se obrigaram a comprar
15,5 milhões de sacas, 9,3 milhões das quais do Brasil.(2) Por outro lado, o
fato de o Brasil ser um país do continente americano inclinava o Governo Vargas
a uma aproximação com os Estados Unidos.
Com o
inicio dos ataques submarinos à marinha mercante brasileira, o povo tomava
partido contra a Alemanha, saindo às ruas em grandes manifestações, exigindo
a declaração de guerra. A 18 de fevereiro de 1942, o navio mercante Olinda era
afundado por um submarino alemão. Poucos dias mais tarde era torpedeado um
segundo navio brasileiro. Em março, outra embarcação era posta a pique. Em
maio, junho e julho, mais oito navios foram afundados e em agosto outras seis
embarcações. Finalmente, diante do clamor popular, a 22 de agosto de 1942, Getúlio
Vargas reconheceu o estado de beligerância e, a 31 do mesmo mês, declarou
guerra aos países do Eixo.
O
Congresso dos Estado Unidos havia votado a Lei de Empréstimo e Arrendamento no
início de 1941, conferindo poderes ao presidente dos EUA para vender,
transferir, trocar, arrendar e emprestar armamentos e equipamentos a qualquer país
sempre que a defesa dos Estados Unidos assim o exigisse. A lei, conhecida como
Lend and Lease, fora motivada diretamente pela situação da Inglaterra,
que em janeiro de 1941 não dispunha de reservas de ouro ou dólares para
comprar nos EUA as armas que necessitava para fazer frente ao esforço de guerra
contra a Alemanha.
Desde
1941, o Brasil negociava com os Estados Unidos a concessão de créditos e a
venda de máquinas para a construção da Usina de Volta Redonda. Após a III ª
Reunião de Consultas, em janeiro de 1942, no Rio de Janeiro, Vargas enviou seu
ministro da Fazenda, Souza Costa, para definir os acordos de compras de armas e
de concessão de créditos e assistência técnica para a implantação de indústrias
estratégicas no Brasil.
Os
americanos pressionavam o Brasil a permitir a instalação de bases militares
americanas em Belém, Natal e Fernando de Noronha. O Brasil buscava obter o máximo
de concessões dos americanos em troca das facilidades militares no Norte e
Nordeste e do apoio político brasileiro. No dia 28 de fevereiro, no exato
momento em que se ultimavam os acordos econômicos da missão Souza Costa, o
Embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Jefferson Caffery, endereçava uma
carta a Vargas solicitando, em nome de Roosevelt, permissão para a instalação
das bases militares.(3)
Finalmente,
a 3 de março o Brasil e Estados Unidos assinavam o acordo de Empréstimo e
Arrendamento, que fixava em 200 milhões de dólares as importações de
armamentos pelo Brasil, com uma redução de 65% nos preços. Acordos sobre a
exportações de ferro e borracha para os EUA eram também assinados, sendo que,
no segundo caso, envolvendo a produção de cinco anos.
Outro
importante documento firmando entre os dois países após o rompimento de relações
do Brasil com o Eixo foi o Convênio Político e Militar, assinado em 23 de maio
de 1942. Esse acordo estabelecia bases abrangentes para as relações entre os
dois países no quadro de guerra, especialmente sobre “o concurso de
suas forças militares e econômicas na defesa do continente”. (4
) O Convênio
estabelecia as condições de instalação e operação das bases militares
norte-americanas no Brasil. O artigo VIII estabelecia como dever brasileiro
promover “a mobilização de sua indústria bélica, inclusive construções
navais e aeronáutica”. (5
)
Apesar
de constar como obrigação brasileira, o texto na verdade respondia aos
interesses do país e ao empenho do Governo Vargas de implantar a indústria bélica.
O artigo XIII obrigava os Estados Unidos a fornecer ao Brasil não somente
material bélico, o que já fora previsto no Acordo de Empréstimo e
Arrendamento, mas também “os materiais indispensáveis para o desenvolvimento
de suas redes ferroviárias nas zonas possíveis de operação”. (6)
Notas
(1)
Telegrama de Presidente da República ao embaixador do Brasil em Washington
citado por SILVA, Hélio em 1942 – a guerra no continente, Rio de Janeiro,
1972, Editora Civilização Brasileira, p. 281
(2)
Ver SILVA, Hélio. 1942 – a guerra no continente. Op. cit. P. 367
(3)
SILVA, Hélio. 1942 – a guerra no continente. Op. cit. P. 292
(4)
SILVA, Hélio. 1942 – a guerra no continente. Op. cit. P. 90
(5)
Idem p. 91
(6)
Ibidem.