a COMPAnHIA aeronáutica PAULISTA
A
Companhia Aeronáutica Paulista foi criada durante a Segunda Guerra Mundial em
Santo André, região do ABC paulista. No inicio de 1942, a Laminação Nacional
de Metais, uma empresa do grupo de Francisco Pignatari, criava uma seção de
aviação, sob a direção de Jorge da Rocha Fragoso, que havia trabalhado
anteriormente na Fábrica do Galeão. A seção produziu 30 planadores Alcatraz,
cópia de um famoso modelo alemão, e 20 planadores Saracura, de projeto do IPT.
Em agosto do mesmo ano, a seção de aviação tornava-se uma empresa
independente.
O grupo
Pignatari possuía diversas empresas localizadas em Santo André, entre elas a
Companhia Brasileira de Zinco e indústrias fabricantes de máquinas e
equipamentos. Em todas as empresas trabalhavam cerca de cinco mil operários.
Sobre essa base industrial a CAP cresceu rapidamente e em pouco tempo contava
com cerca de 300 operários.
A CAP
construiu o protótipo denominado IPT-4, projetado por Clay Presgrave do Amaral,
quer teria a designação industrial CAP-1 e o nome comercial Planalto, um
monomotor de dois lugares, concebido para instrução de pilotos. O CAP-1 teve
seu projeto modificado pela empresa que alterou o perfil aerodinâmico das asa
projetadas pelo IPT. O resultado foi muito negativo e comprometeu gravemente o
desempenho do avião. Apenas 11 aparelhos foram fabricados, incluindo o protótipo.
Diante das falhas reveladas pelo avião, a empresa promoveu nova modificações
no Planalto, buscando superar os problemas de estabilidade que se apresentavam.
Essa nova versão do aparelho recebeu a designação CAP-3. Foram construídas
oito dessas aeronaves, dotadas de um motor Gipsy de 130 cavalos. Todas tiveram
uma breve vida útil.
Ainda em
1942, a CAP comprou os direitos de fabricação do avião EAY-201, da empresa
aeronáutica Ypiranga. O avião era uma cópia de um modelo famoso
norte-americano. O IPT foi contratado para projetá-lo, tarefa cuja direção
coube a Romeu Corsini. Em abril de 1943, a CAP começava a produzir em série a
aeronave que ganhava o nome industrial CAP- 4. Tinha início a longa e
bem-sucedida trajetória do Paulistinha.
O
Paulistinha era uma avião de dois lugares, asa alta, estrutura de madeira de
tubos de aço cromo-molibdênio, e foi empregado largamente no treinamento de
pilotos civis pelos aeroclubes. Contava com um motor norte-americano Franklin,
de 65 cavalos, e hélices de madeira fabricadas pelo IPT. Era uma aeronave
plenamente adaptada às condições brasileiras: robusta, simples, barata, de
manejo e manutenção fáceis. Por essas razões, o Paulistinha tornou-se um
sucesso de vendas. Foram produzidos 777 aviões. Foram exportadas aeronaves para
a Argentina, Paraguai, Chile, Uruguai e Portugal.
Em 1943,
as empresas do grupo Pignatari produziam instrumentos, rodas, freios,
cabos e tubos de aço, peças usinadas que envolviam ligas especiais. As hélices,
as chapas de contra-placado, as telas que recobriam a estrutura, as tintas, os
pneus e os tanques de combustíveis eram fabricados no país. Dessa forma,
apenas os motores do Paulistinha eram importados.(1)
A empresa produziu os aviões
ininterruptamente até 1948. Foram construídos ainda dois protótipos de uma
versão sanitária do Paulistinha, designado CAP-4B, e um aparelho Paulistinha
para uso militar, como avião de observação e orientação de artilharia,
designado CAP- 4C.
No início
de 1945, a Companhia Aeronáutica Paulista resolveu desenvolver uma aeronave com
as mesmas características do Paulistinha mas com assentos lado a lado. A
aeronave foi denominada Carioca e recebeu a designação CAP- 5, o quinto
projeto da companhia. O protótipo foi construído a partir de um aparelho
CAP-4. Paulistinha, cuja fuselagem foi alargada, mantendo-se inalteradas as asas
e os lemes. Em fevereiro, o protótipo realizava seus primeiros vôos, mas o
processo de homologação seria bem mais lento. O CAP- 5 não havia sido
projetado: era apenas uma variante do Paulistinha. Dessa forma, enfrentou o
rigor do Serviço Técnico da Aeronáutica, o órgão homologador. A empresa
fabricou uma pequena série do aparelho, mantendo o desenho básico do protótipo.
O CAP- 5
tinha a estrutura de tubos soldados de aço cromolibdênio e de madeira, com
cobertura de tela. Contava com um motor norte-americano Franklin, de 90 cavalos,
e hélices fabricadas pelo IPT. Era um aparelho de treinamento primário, com
uma velocidade de cruzeiro de 130 quilômetros por hora. O avião não teve
grande aceitação pelos aeroclubes, sendo sua produção total de apenas sete
aeronaves: o protótipo e mais seis aparelhos de série.(2)
Entre
1944 e 1945, a CAP formou uma equipe técnica que contava com Palamed Borsani,
Oswaldo Fadigas Torres, Otávio Gaspar de Souza Ricardo e Otávio Taliberti.
Essa equipe foi responsável pelos projetos das aeronaves designadas CAP-6 e
CAP-8.
O CAP-6
era uma nova versão do avião “Planalto”, projetada por Oswaldo Fadigas.
Voltando de uma temporada nos Estados Unidos, onde se diplomara em engenharia
aeronáutica pelo Massachusetts Institute of Technology, Fadigas identificou e
resolveu o problema de instabilidade do avião Planalto. A intenção de
Pignatari era vender ao Ministério da Aeronáutica um aparelho de treinamento
avançado, mas as autoridades militares sequer homologaram o kit de adaptação
dos adaptação dos aviões Planalto.
Por sua
vez, o avião CAP- 8 seria um monomotor de turismo de quatro lugares e asa
baixa. Apenas o protótipo foi construído e realizou ensaios de vôo, dotado de
um motor Franklin de 130 cavalos.
O último
avião projetado pela empresa foi designado CAP- 9 e era uma versão sanitária
do aparelho CAP- 5. Uma pequena série foi fabricada.
Com o
fim da guerra, a Companhia Aeronáutica Paulista enfrentou os mesmos problemas
que suas congêneres nacionais. Gradativamente cessavam as compras da Campanha
Nacional de Aviação. O mercado militar, por sua vez, encontrava-se abastecido
por aviões norte-americanos, sobras de guerra. Por outro lado, o incipiente
mercado privado não era suficiente para viabilizar a operação da empresa.
Dessa forma, antes que se pudesse consolidar a tecnologia adquirida com a produção
em larga escala do Paulistinha e com o projeto de aeronaves, a CAP fechou
definitivamente suas portas em 1949.
A Fábrica Nacional de Hélices Cruzeiro
O
desenvolvimento da aviação no Brasil gerou a fabricação local de algumas
partes e peças, entre elas de hélices. A Fábrica Nacional de Hélices
Cruzeiro funcionou entre 1918 e 1948 em São Paulo, produzindo cerca de 1500
hélices de jacarandá e pau-marfim para diversos aviões. A empresa produziu
hélices para a aviação do Exército e posteriormente para a FAB. Era
fornecedora da CNNA e da CAP. Com a introdução em larga escala de hélices
metálicas depois da Segunda Guerra, e com o declínio da produção interna de
aviões, a empresa perdeu mercado e encerrou suas atividades.(1)
Notas
(1) ANDRADE, Roberto Pereira de. A construção
aeronáutica no Brasil. Op. cit. P. 76.
(2) DUFRICHE, Carlos. Manuscritos pessoais
sobre a indústria aeronáutica nacional.
Rio
de Janeiro, 1975.