a contribuição do ipt
Em 1894,
era fundada a Escola Politécnica, em São Paulo, uma das primeiras escolas de
engenharia do país. Desde 1891, o Congresso Legislativo do Estado registrava
projetos de lei prevendo a criação de uma escola de engenharia. Em 1892, o então
presidente da Câmara dos Deputados do Estado e futuro diretor da Escola,
Francisco de Paula Souza, apresentava um projeto dispondo sobre a criação do
Instituto Politécnico. (1)
Aeronave
Planalto, projetada pelo IPT e fabricada pela Companhia Aeronáutica Paulista.
Fonte: Instituto de pesquisa Tecnológicas
A República
havia sido proclamada. O país vivia um processo constituinte que desaguaria no
estabelecimento do regime federativo e numa fase de grande autonomia dos
estados. São Paulo vivia uma expansão acentuada da lavoura do café. Ferrovias
atingiam regiões cafeeiras distantes da Capital, enquanto esta sofria um
processo acelerado de urbanização. No entanto, o país importava a maioria dos
bens que consumia, deixando inexploradas as imensas riquezas naturais que já
sabia possuir. Contra esse estado de letargia e indigência intelectual,
pronunciavam-se algumas lideranças que identificavam na industrialização e no
desenvolvimento técnico as forças capazes de promover o desenvolvimento econômico.
Entre esses homens figurava Paula Souza.
Em 1894,
por ocasião da solenidade de criação da Escola Politécnica, Paula Souza
revelava seu pensamento industrialista:
“Se os conhecimentos matemáticos e técnicos fossem mais divulgados
entre nós, como o são os das ciências sociais e jurídicas, não assistiríamos
hoje a essa curiosa anomalia de ver aquele mesmo povo que tão sábio quão
pacificamente resolve os mais difíceis problemas sociais e políticos, como o
da abolição da escravidão em 1889, importar os gêneros mais indispensáveis
à vida, e até recorrer à industria estrangeira para obtenção dos mais
simples artefatos e aparelhos necessários à defesa da Pátria, ameaçada de ruína
e devastação.”
E ele continua:
“Sim senhores, se fossem comezinhos ao nosso povo os conhecimentos técnicos,
teríamos, graças à reconhecida inteligência e natural perspicácia dos
filhos desta terra, uma indústria variada, próspera e bem dirigida. Essas
riquezas fabulosas, que existem ocultas no solo e subsolo, nas nossas extensas
matas e campos, nos nossos caudalosos rios e impetuosos ribeiros, seriam
convenientemente aproveitadas, em nosso lar encontraríamos facilmente o que
hoje, com grande dispêndio necessitamos importar do estrangeiro!” (2)
Aeronave Planalto, no Campo de Marte, São Paulo. Projetado pelo IPT, a aeronave foi fabricada pela Companhia Aeronáutica Paulista
Cinco
anos decorridos da fundação da Escola, nela surgia o Gabinete da Resistência
de Materiais, origem do Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo –
IPT, uma das mais importantes instituições de pesquisa do país.
Em seus
primeiros anos de existência, o Gabinete dedicou-se ao ensaio de materiais,
especialmente daqueles voltados para a construção civil, tais como o cimento,
os materiais cerâmicos e madeiras. De 1927, quando começaram a serem editados
os boletins técnicos do IPT, até 1936, a maioria das publicações da instituição
tratava de ensaios de materiais para a construção civil.
Em 1926
o Gabinete transformou-se em Laboratório de Ensaio de Materiais, perdendo sua
feição essencialmente didática para aproximar-se da fisionomia de uma
instituição de pesquisas. Quatro anos mais tarde era criada a Seção de
Madeiras, com o objetivo de realizar estudos sistemáticos sobre as
características físicas e mecânicas de nossas essências florestais. Até
fins de 1933 já haviam sido estudadas cerca de 40 espécies e desse trabalho
resultavam algumas aplicações, tais como produção de tacos e vernizes, além
de madeira para emprego aeronáutico, em especial na construção de planadores.
(3)
A aeronave Besouro, projetada e construída pelo IPT
Em 1934,
era publicado o boletim técnico “Emprego de madeiras nacionais em aviação”,
também apresentado ao 1º Congresso Nacional da Aeronáutica, de autoria de
Frederico Brotero. Dirigindo a Seção de Madeiras do IPT, o interesse de
Brotero pela aviação foi suscitado pela busca de aplicações para as madeiras
brasileiras. No princípio da década de 30, a maioria das estruturas de
aeronaves era de madeira. Brotero tornou-se conhecido nos meios técnicos pelo
estudo de freijó, uma espécie que combinava pouco peso e grande resistência,
característica que o tornava interessante para o emprego aeronáutico.
Aeronave Planalto, no Campo de Marte, São Paulo. Projetado pelo IPT, a aeronave foi fabricada pela Companhia Aeronáutica Paulista
Gradativamente,
o Instituto passou a se constituir numa referência necessária para todos
quantos se interessavam pelo desenvolvimento da indústria aeronáutica no país.
O envolvimento de Brotero pela aviação crescia constantemente. (4)
Em 1938, ele uniu-se a Orthon Hoover para projetar uma aeronave de estrutura de madeira, para uma pessoa. O primeiro dos quatro protótipos de aeronave foi construído na Escola Politécnica e terminado em Rio Claro, ficando conhecido como Bichinho de Rio Claro. Mas tarde ganhou a denominação IPT-0. O aparelho trazia algumas inovações, entre elas asas dotadas de passagens aerodinâmicas hiper-sustentadoras no bordo de ataque. Esse modelo de asa passou a se constituir numa característica dos aviões do IPT. (5)
Oficina
aeronáutica do IPT.
Fonte: Instituto de pesquisa Tecnológicas
O protótipo inicial foi dotado de um motor de 60 cavalos, importado. As nervuras das asas e da fuselagem eram de freijó. A cobertura era de contra-placado fabricado pela IPT. Em 1943, o IPT realizou um novo projeto da aeronave, para que ela pudesse contar com motores mais possantes de, respectivamente, 65, 75 e 80 cavalos. Foram então construídos no IPT outros três aparelhos. Todas aeronaves apresentavam excelentes condições de vôo, e em 1940, Clay Presgrave do Amaral dava início às atividades aeronáuticas da Seção de Madeiras, dirigida por Brotero. Em 1948, a Seção de Aeronáutica foi elevada à condição de Divisão de Aeronáutica do IPT.
O primeiro projeto de aeronave, desenvolvido pela Seção de Aeronáutica do IPT, foi o de um planador para instrução primária, registrando como IPT-1 e batizado Gafanhoto. O aparelho era um monoplano de asa alta, de um lugar com revestimento de contra-placado fabricado pelo IPT. Visava o treinamento de pilotos e podia realizar vôos de pequeno alcance. O meio de lançamento era o reboque de automóvel.Foi construído um protótipo, e o IPT publicou um folheto contendo instruções e desenhos técnicos para sua construção, tornando-os de domínio público. Os projetistas pretendiam “eliminar de forma mais completa possível materiais de importação”. (6)
Os
planadores haviam sofrido um grande desenvolvimento na Alemanha, que os
utilizara para contornar as restrições do Tratado de Versalhes que a proibia
de manter uma força aérea. Nessa época, os planadores comumente utilizados no
Brasil para instrução primária eram de fabricação alemã. Em 1937, o IPT
iniciou a fabricação experimental de contra-placados, valendo-se de uma prensa
improvisada. O material empregava pinho do Paraná e foi utilizado na construção,
em 1938, do aparelho Bichinho. Tendo em vista os bons resultados apresentados e
a existência de mercado, até então suprido por importações, o IPT instalou
uma pequena unidade para produção de contra-placados, que começou a operar em
fins de 1940.
Projetado pelo
IPT, o planador primário Gafanhoto era rebocado por automóvel.
Fonte: Instituto de pesquisa Tecnológicas
O
interesse do IPT pelo emprego de madeiras em aviação acontecia num momento em
que a tendência mundial da tecnologia aeronáutica era a substituição da
madeira por materiais metálicos. O Brasil ainda não contava com a grande
siderurgia, nem com a produção de alumínio e dispunha de um parque metalúrgico
bastante limitado. Por essa razão, Brotero defendia a continuidade das
pesquisas aeronáuticas com madeira, que acreditava ser o único material de que
o país poderia dispor para a construção aeronáutica durante algum tempo.(7)
O
planador IPT-2, batizado Aratinga, foi projetado para o treinamento primário de
pilotos. Um único protótipo chegou a ser construído e voou, pela primeira vez
em julho de 1942. Era um aparelho de um único lugar, estrutura de madeira e
cobertura de contra-placado fabricado pelo próprio IPT
O
Instituto de Pesquisas Tecnológicas constituiu-se na base técnica sobre a qual
surgiu a Companhia Aeronáutica Paulista. O Instituto concebeu duas aeronaves
que vieram a ser fabricadas em série por essa empresa, além de projetar a
famosa aeronave Paulistinha, uma cópia de um modelo norte-americano.
No
campo de Marte, o planador denominado Aratinga, que recebeu a designação
IPT-2.
Fonte: Instituto de pesquisa Tecnológicas
O
planador IPT-3, denominado Saracura, foi uma dessas aeronaves. Cópia do
aparelho alemão Zoegling, a aeronave era destinada ao treinamento primário de
pilotos. O IPT-3 voou pela primeira vez em setembro de 1942. Era um modelo
simples, de estrutura de madeira e fácil manejo.
O IPT-4
foi projetado por Clay Presgrave do Amaral. Era um monomotor de asa baixa, para
treinamento de pilotos. A estrutura era de madeira, com coberturas de chapas de
contra-placado e tela. Era dotado de um motor norte-americano Franklin, de 90
cavalos. Clay do Amaral fez parte da primeira diretoria da Companhia Aeronáutica
Paulista, e o IPT-4 tornou-se o CAP-1, denominado Planalto. Uma pequena série
do avião foi fabricada pela empresa.
O modelo
IPT-5, designado Jaraguá, era um planador experimental de dois lugares, de
duplo comando, asas alongadas e de concepção moderna para a época. Voou pela
primeira vez no final de 1941.
O modelo
IPT-6, designado Stratus, foi projetado por João Lepper. Era um planador
experimental, de competição, e voou pela primeira vez em 1944.
Um
protótipo do aparelho IPT-7, denominado Junior, chegou a ser construído e
voou, mas a aeronave não foi fabricada em série.
Fonte: Instituto de Pesquisas Tecnológicas
O protótipo
IPT-7, designado Junior, foi projetado no início de 1945. Era um monomotor de
dois lugares, estrutura de freijó, cobertura de contra-placado e tela plástica
e motor Franklin norte-americano de 65 cavalos. Apenas o protótipo foi construído,
chegando a ser homologado.
O IPT
projetou ainda outras aeronaves, designadas pelos números 8, 9, 10, 11 e 15 mas
que jamais chegaram a ser construídas.
O
IPT-12, denominado Caboré, era um planador de alto rendimento, de uso
esportivo.
O IPT-13
era um avião monomotor de dois lugares, de asa baixa, estrutura de freijó e
cobertura de contra-placado de pinho, dotado de um motor Continental de 75
cavalos. Projetado, em 1949, por Silvio de Oliveira, apenas um protótipo foi
construído e voou ao longo de cinco anos.
Planador
Saracura, designado IPT-3.
Fonte: Instituto de pesquisa Tecnológicas
O modelo
denominado IPT-14 era um planador de instrução de dois lugares. Ambos foram
construídos e voaram durante alguns anos.
Anos
mais tarde, no pós guerra, com o encerramento das atividades da CAP e de outras
indústrias aeronáuticas, o IPT perdia o mercado para os projetos que
desenvolvia. A Divisão de Aeronáutica realizava ensaios e projetos de
aeronaves, buscando manter a equipe de técnicos no Instituto. Apesar de sua
experiência, o grupo não foi absorvido pelo CTA e gradativamente o IPT
abandonou as atividades aeronáuticas.
A aeronave EAY 201, precursora do Paulistinha, era cópia de um modelo norte-americano
Os dois
últimos projetos realizados pelo Instituto também não chegaram à produção
industrial. O IPT-16 foi projetado por Joseph Kovacs e Silvio de Oliveira e era
um avião monomotor, de um lugar, estrutura de madeira e motor Hirt de 160
cavalos. Começou a ser construído em 1949 e foi concluído apenas dez anos
mais tarde, voando em setembro de 1959. Denominada Surubim, a aeronave tinha um
excelente desempenho.
O
IPT-17, último projeto realizado pelo Instituto, era um planador de um lugar,
de estrutura de freijó e asas de perfil laminar. Apenas o protótipo foi
construído e voou em 1960.
Aeronave EAY - 201
A
Segunda Guerra Mundial assinala um período de crescimento da indústria aeronáutica
no país. Foi também o momento mais significativo da trajetória do IPT na área
aeronáutica, quando o Instituto projetou aeronaves que chegaram à produção
em série, e quando registrou-se uma certa articulação entre a atividade de
pesquisa e o processo industrial. Diversos protótipos projetados e construídos
pelo IPT voaram anos seguidos, demonstrando a qualidade dos trabalhos que se
realizavam no Instituto.
(1) MEILLER, João Luiz & SILVA, Francisco I. de Araújo. Meio Século de Tecnologia (1899-1949) Boletim, Instituto de Pesquisas tecnológicas, São Paulo, junho de 1949. P. 27.
(2) Idem p. 28
(3) INSTITUTO DE PESQUISAS TECNOLÓGICAS – História de sua evolução
(1899-1939).
Boletim, Instituto de Pesquisas Tecnológicas, São Paulo (20),
janeiro de 1939, p. 32.
(4 ) Brotero publicou:
Sugestão para o melhor conhecimento de nossas madeiras-propriedades físicas e mecânicas da peroba rosa, em 1931; Estudo dos caracteres físicos e mecânicos das madeiras, em 1932 e Estudo sobre madeira: 1. Contribuição sobre a flambagem; 2. Ensaio de compressão simples, em 1933.
Em 1934, ele publicou o estudo Emprego das madeiras nacionais em aviação.
Em 1938, Algumas aplicações de madeiras: I. soalho de madeira, II. Madeira para aviação, III. Alguns dados sobre a fabricação de “hélices de madeiras.
Por fim, em 1941 era publicado o boletim n.º 29 do IPT, trazendo três trabalhos relacionados à aviação realizados pela equipe liderada por Brotero: Dados experimentais sobre freijó, dele próprio Contraplacado nacional para aviação, escrito por Armando Vieira e Cálculo de Longarinas em caixão, de Eduardo Mello Alvarenga.
No ano seguinte, Brotero e Clay Presgrave do Amaral
publicavam Planador para instrução primária.
(5)
ANDRADE, Roberto Pereira de. A construção aeronáutica no Brasil.1910/1976.
Op. cit. p. 62
(6)
BROTERO, Frederico Abranches & AMARAL, Clay Presgave.
Planador para instrução
primária. Boletim, Instituto de Pesquisas tecnológicas, São Paulo, (30),
junho de 1942, p. 6.
(7)
BROTERO, Frederico A.
Contraplacado para a Aviação Nacional. Boletim,
do Instituo de Engenharia, São Paulo, (152), abril/maio/junho de 1940.