VENCENDO O AZUL


A HISTÓRIA DA INDÚSTRIA E TECNOLOGIA AERONÁUTICAS



            

a fábrica do galeão

 

   

Raymundo Vasconcellos de Aboim nasceu no Rio de Janeiro, em 1898. Em 1914, ingressou a Marinha de Guerra, tornando-se oficial quatro anos mais tarde. Participou das primeiras turmas da Aviação Naval, brevetando-se em 1919. Em 1922, já engenheiro civil, viajou para a Inglaterra, onde realizou o curso de pós-graduação em engenharia aeronáutica no Imperial College of Science and Technology, tornando-se o primeiro engenheiro aeronáutico brasileiro. Foi membro da Sociedade Real de Aeronáutica e do Instituto de Engenheiros Aeronáuticos de Londres. Voltou ao Brasil em 1925. Foi nomeado diretor de material da Aviação Naval em 1929, cargo que ocupou até 1935, Era capitão-de-corveta à época do congresso Nacional de Aeronáutica.

Em 1935, Aboim viajou aos Estados Unidos e à Alemanha, visitando diversas fábricas de aviões. Mais tarde, ele foi o  principal responsável pelo acordo firmado entre a Marinha brasileira e a empresa alemã “Focke Wulf” que levou à produção seriada de aeronaves militares de projetos alemão pela Fábrica do Galeão, ao longo da segundo metade da década de 30.

Nessa mesma época Aboim participou do 1º Congresso Nacional de Aeronáutica, propondo que a implantação da indústria aeronáutica no Brasil fosse baseada em dois pontos essenciais: a formação de recursos humanos e o licenciamento de tecnologia.

Em primeiro lugar, ele acreditava que se deveria enviar técnicos aos Estados Unidos e à Europa para realizar cursos e estágios em empresas e propunha que fosse criada uma cadeira de aerodinâmica nas escolas politécnicas, além de uma matéria específica dedicada ao estudo da estrutura de aeronaves, que seria ministrada no último ano do cursos de engenharia.

Em segundo lugar, Aboim defendia o licenciamento de tecnologia para fabricação de aviões no Brasil. Segundo ele, a Bélgica iniciara a fabricação de aviões em regime de produção sob licença importando durante dois anos, as peças necessárias à montagem das aeronaves. Para Aboim, o Brasil deveria fazer o mesmo, começando pela simples montagem dos aparelhos, aumentando gradativamente o índice de nacionalização dos aparelhos. Para ele, apenas numa segunda etapa é que se deveria pensar em projetar e fabricar aeronaves nacionais. ( 1 )

O capitão defendia também uma política de compras pelo Governo Federal, de maneira a assegurar um volume mínimo de produção para as empresas nascentes, garantindo a esses empreendimentos estabilidade suficiente para que consolidassem

Aboim pode aplicar algumas de suas idéias, pouco tempo depois com a fabricação, sob sua direção, de dois modelos de aeronaves alemãs, na fabrica do Galeão.

 

A Fábrica do Galeão

 

A Fábrica do Galeão teve origem na Marinha. Entre 1927 e 1935, a Aviação Naval havia adquirido 143 aviões.( 2 ) Em meados da década de 30 estudava a compra de aviões leves para treinamento surgiu a idéia de fabricar no país os aviões de que necessitava.

Desde 1928 Raymundo Vasconcellos de Aboim estava a frente da Diretoria de Material da Aviação Naval. Com o propósito de negociar a instalação de uma oficina de manutenção de aviões e perseguindo a idéia de obter licenças para a produção de aeronaves, Aboim visitou a Alemanha.

 

 

O Galeão 2FG, denominação brasileira para o modelo Focke Wulf 58.

Fonte: Museu Aeroespacial do Rio de Janeiro

 

 

Vivendo o regime nazista, a Alemanha preparava-se para a guerra. Sua indústria bélica crescia rapidamente e, a essa altura, já era uma das mais desenvolvidas de todo o mundo. Os alemães concordaram com a proposta brasileira de licenciamento par a produção de aeronaves militares de projeto alemão no Brasil. A aquiescência alemã não se explica somente pela tentativa de conquistar novos mercados, mas também por uma tentativa de granjear simpatias e apresentar-se como alternativa aos Estados Unidos como fonte de tecnologia e bens de capital.

Assim, a Marinha negociou com a empresa Focke Wulf  o licenciamento de quatro modelos de aeronaves, desde um aparelho para treinamento até um quadrimotor para transporte de passageiros. Dois dos quatros modelos negociados foram efetivamente montados no país.

 

 

Aparelho Fairchild PT19 fabricado sob licença pela Fábrica do Galeão.

Fonte: Museu Aeroespacial do Rio de Janeiro

 

 

Em junho de 1936 era lançada a pedra fundamental das Oficinas Gerais da Aviação Naval, que ganhariam o nome de Fábrica do Galeão. Seriam 19.000 metros quadrados de área construída. A obra foi realizada por Henrique Lage, que atuava como procurador da Focke Wulf. Dessa forma, em junho de 1939, foi inaugurada a Fábrica do Galeão, na Ilha do Governador, no Rio de Janeiro.

No mesmo ano, chegava ao Brasil uma missão de técnicos alemães com a finalidade de treinar pessoal e oferecer assistência técnica à fábrica. Em 1937 foram montados 20 aparelhos Focke Wulf Fw 44 Stieglitz. A aeronave recebeu a denominação 1 AVN, significando primeiro aparelho fabricado pela Aviação Naval. Com a criação do Ministério da Aeronáutica, essa designação foi modificada para 1FG, as letra iniciais da Fabrica do Galeão. Em 1938 foram montados mais de 20 Pintassilgos.( 3 )

 

 

Fábrica do Galeão. À esquerda, na foto, a estrutura de tubos de aço solados de um aparelho 3FG.

Fonte: Museu Aeroespacial do Rio de Janeiro

 

O aparelho 1 FG foi batizado Pintassilgo,  e era um monomotor de dois lugares, dotado de um motor alemã Sh 14, de 150 cavalos de força, estrutura de madeira e cobertura de tela e contraplacado.

O segundo avião de projeto alemão montado no país foi o aparelho Focke Wulf Fw 58, um bimotor destinado ao treinamento de pilotos militares e missões de bombardeio e reconhecimento.O aparelho foi designado 2 FG.

 

 

Fábrica do Galeão.

Fonte: Museu Aeroespacial do Rio de Janeiro

 

Foram fabricados 25 aparelhos pela Fábrica do Galeão, entre 1938 e 1942. Duas séries do aparelho 2 FG se sucederam. A primeira, de 10 aeronaves, incorporou muito poucos componentes de fabricação local. A segunda, de 15 aeronaves, produzida entre 1940 e 1942, apresentou maior índice de nacionalização, empregando estruturas das asas, freios, pneus, hélices, telas e contraplacados nacionais. Os aparelhos 2 FG eram dotados de motores Argus alemães, de 240 cavalos e levavam quatro tripulantes em missões de combate. Durante a Segunda Guerra Mundial, foram utilizados na busca de submarinos e depois de 1945 foram empregados pelo Correio Aéreo Nacional.

Com a entrada do Brasil na guerra contra a Alemanha, a Fábrica do Galeão passou  a produzir, também sob licença, o modelo norte-americano Fairchild PT 19, com a designação 3 FG. O aparelho contava com dois lugares, estrutura de madeira e cobertura de tela, e era dotado de um motor Ranger, de 175 cavalos. A aeronave foi empregada pela Força Aérea no treinamento de pilotos. A Fábrica do Galeão produziu 232 aparelhos 3 FG até 1947, e a FAB recebeu ainda outros 170 Aviões PT 19 fabricados nos Estados Unidos.(4 )

 

 

Fábrica do Galeão. Montagem de motores de aparelhos 3 FG.

Fonte: Museu Aeroespacial do Rio de Janeiro

 

Segundo Ozires Silva, a opção pelo licenciamento do modelo  Fairchild PT 19 não se justificava. Tratava-se de um avião de projeto antigo, de estrutura de madeira, quando nos Estados Unidos produziam-se aviões metálicos em larga escala. Além disso, o país dispunha de competência acumulada para projetar e fabricar um avião de madeira para treinamento.

 

 

Fábrica do Galeão. Estruturas de aço cromo-molibdênio de aparelhos 3FG

Fonte: Museu Aeroespacial do Rio de Janeiro

 

 

Mas a Fábrica do Galeão adotava desde o primeiro momento se sua existência a concepção de que o caminho para o desenvolvimento da indústria aeronáutica no país seria o do licenciamento de tecnologia.

 

 

Fábrica do Galeão. Produção de hélices.

Fonte: Museu Aeroespacial do Rio de Janeiro

 

 

Em 1950, o engenheiro austríaco Paul Baurmgartl foi contratado pela Fábrica, dirigindo a construção de um helicóptero experimental de um lugar, adaptação de um seu antigo projeto realizado na Europa. O protótipo chegou a realizar quatro vôos, recebendo a designação 4 FG. O aparelho jamais foi fabricado em série, tendo o protótipo sido destruído num acidente.

 

 

Fábrica do Galeão.

Fonte: Museu Aeroespacial do Rio de Janeiro

 

 

Em 1952, o Ministério da Aeronáutica determinou à Fábrica do Galeão a fabricação de um avião leve para o treinamento primário de pilotos civis nos aeroclubes. O modelo escolhido foi o aparelho 1-80 projetado pelo engenheiro Marc William Niess em 1949. O Protótipo já fora construído, voara bem e estava homologado.

 

 

Fábrica do Galeão. Prensas e outras máquinas produtivas.

Fonte: Museu Aeroespacial do Rio de Janeiro

 

 

Marc Niess formou-se em engenharia pela Escola Politécnica, ingressando em 1941 na Companhia Aeronáutica Paulista, onde participou dos projetos do Paulistinha e da aeronave Planalto. Em 1942, transferiu-se para a Companhia Nacional de Navegação Aérea, no Rio de Janeiro, onde trabalhou até 1945, quando voltou para a CAP, nela permanecendo até seu fechamento, em 1948. O aparelho projetado por Niess ganhou a denominação 1-80 para indicar ser o primeiro de sua concepção e que contava com um motor de 80 cavalos. Era um avião de asa alta, de estrutura de aço soldado e asa de madeira, cobertura de tela e dois lugares, lado a lado.

 

 

Fábrica do Galeão.

Fonte: Museu Aeroespacial do Rio de Janeiro

 

 

No Galeão, o avião ganhou a denominação de 5 FG, indicando que seria a quinta aeronave produzida em série pela fábrica. Entretanto, o Ministério da Aeronáutica fixou um prazo excessivamente exíguo para a entrega das aeronaves: seis meses. A Fábrica promoveu, então, alterações no projeto original, substituindo a cobertura de tela das asas por contraplacado, que dispunha  em estoque, e acrescentado ainda dois tanques para aumentar a autonomia de vôo. As alterações comprometeram o desempenho do avião. Eram 120 quilos adicionais não previstos pelo projeto O avião, originalmente leve e de fácil comando, tornou-se inadequado para a instrução primária, sendo rapidamente abandonado pelos aeroclubes.

 

 

Fábrica do Galeão.

Fonte: Museu Aeroespacial do Rio de Janeiro

 

 

Em janeiro de 1953, interrompia-se a produção em série de aeronaves 5 FG, tendo sido fabricados 68 aparelhos, de uma encomenda inicial de 80 aviões.

 

A Fokker no Brasil

 

A derradeira tentativa de operação da Fábrica do Galeão ocorreu em 1953, quando suas instalações foram arrendadas à Fokker Indústrias Aeronáuticas, empresa  formada pela Fokker holandesa e por um grupo de empresários brasileiros. Pelo acordo de acionistas, a Fokker holandesa integralizaria 50% do capital total da empresa, sendo que 25% em espécie e o restante em tecnologia.

 

 

Aeronave T21 (vigésimo primeiro modelo de aparelho para treinamento primário empregado pela Força Aérea Brasileira – FAB)  produzido nas instalações na Fábrica do Galeão, cedidas à Fokker, indústria aeronáutica holandesa. Foram fabricados 100 aviões, utilizados pela Força Aérea Brasileira em substituição dos aparelhos 3FG.

Fonte: Museu Aeroespacial do Rio de Janeiro

 

 

O Ministério da Aeronáutica realizou então uma encomenda de 100 aviões modelo S11 e 50 aparelhos modelos S12,  ambos de treinamento primário. A única diferença relevante entre os dois modelos residia no trem de aterrissagem, convencional no primeiro caso e triciclo no segundo.

 

 

A aeronave T22 fabricado no Galeão pela subsidiária brasileira da Fokker. Cinqüenta aeronaves foram encomendas pelo Ministério da Aeronáutica,sendo que 35 delas foram efetivamente construídas. Os 15 últimos aviões foram fabricados pela Aeronáutica, depois do encerramento das atividades da empresa holandesa no país.

Fonte: Museu Aeroespacial do Rio de Janeiro

 

 

Os aviões deveriam ser entregues num período de cinco anos. Os aparelhos S11 e S12 eram ambos monomotores de dois lugares, conhecidos no país por sua designação militar, respectivamente T21 e T22. Apesar das encomendas do governo, a Fokker enfrentou dificuldades desde o início de sua presença no país. O projeto havia sido concebido e negociado pelo Brigadeiro Nero Moura, enquanto ministro  da Aeronáutica do segundo Governo Vargas e sofria forte contestação da corrente liderada pelo brigadeiro Eduardo Gomes. A divisão verificada na Aeronáutica tinha raízes políticas, mas no episódio da Fokker os atores pareciam trocar os papéis: Moura havia concebido um empreendimento que entregava uma fábrica estatal para exploração por capitais privados nacionais associados a uma empresa estrangeira, enquanto a corrente liderada por Eduardo Gomes, identificada com idéias liderais, insurgia-se contra essa opção privatista e de abertura ao capital externo.

 

 

Fábrica do Galeão. À direita, na foto, gabaritos para  construção de partes e peças de aparelhos 3FG.

Fonte: Museu Aeroespacial do Rio de Janeiro

 

 

Com o suicídio de Getúlio, Café Filho torna-se Presidente da República e Eduardo Gomes ocupa a pasta da Aeronáutica. Cria-se um quadro de incerteza quanto à continuidade do projeto, o que leva a Fokker a não integralizar sua parte no investimento. 0 balanço de 1957 aponta que apenas um décimo do capital havia sido efetivamente integralizado e mesmo assim por acionista privados brasileiros.

Foram fabricados 100 S11 e 20 S12 pela fábrica do Galeão durante o período de gestão da Fokker holandesa. Mas premida pela descapitalização aguda a que fora submetida, a Fokker brasileira pediu concordata, sendo absorvida pela Aeronáutica.

Entre 1960 e 1962, outros 15 aparelhos S12 foram produzidos pela Fábrica do Galeão, novamente sob controle  do Ministério da Aeronáutica. ( 5 ) Em 1962,  terminava a fabricação seriada do governo  S12 e, com ela encerrava-se as atividades da própria Fábrica do Galeão. Em 1965, ela se transformou em parque de manutenção da Aeronáutica. A fabricação de aparelhos de projeto holandês não alterou a paisagem industrial brasileira no campo aeronáutico. Limitou-se à montagem de aeronaves estrangeiras, com algum índice de nacionalização de componentes, partes e peças.

 

     

   Notas

            

(1) A tese do capitão Raymundo Aboim foi publicada nos Anais do 1º Congresso Nacional de Aeronáutica,  reproduzidos parcialmente pela  Revista Asas, n.º 57, de 1934.

(2)   ANDRADE, Roberto Pereira de. A construção aeronáutica no Brasil 1910/1976. Op. cit. P. 43.

(3)   LINHARES, Antônio Pereira. A Aviação naval brasileira 1916-1940. Duque de Caxias, Imprensa Naval, 1971.

(4)   Museu Aeroespacial do Rio de Janeiro.

(5)   ANDRADE, Roberto Pereira de. A construção aeronáutica no Brasil. Op. cit. P. 172.

 

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