O AUTOR DO projeto do primeiro avião fabricado em série
Em 1922, ano do levante do Forte de Copacabana, que marca o início do ciclo de rebeliões tenentistas, o alagoano Antônio Guedes Muniz formava-se segundo-tenente do Exército. Filho de um funcionário público, Guedes Muniz participou do levante de 22, como oficial de ligação entre Campo dos Afonsos, o Forte de Copacabana e a escola Militar. Derrotado o movimento, Muniz foi preso pela primeira vez. Depois seguiram-se diversas prisões, a todo boato de conspiração.
No Campo de Afonsos, Muniz era de início responsável pela manutenção da pista de pouso. Tempos depois, tornou-se responsável pela manutenção dos aviões da Escola de Aviação do Exército, sediada nos Afonsos. Ali conviveu com a missão militar francesa, da qual fazia parte o capitão Etienne Lafay, autor dos projetos de dois aviões fabricados em 1920 e 1922, por Henrique Lage, na Ilha de Viana, na baía da Guanabara: os aparelhos Rio de Janeiro e Independência. O contato com a missão francesa estimulou Guedes Muniz a realizar o curso de engenharia aeronáutica em Paris.
Assim, em 1927, ano de criação da arma da aviação do Exército, o então capitão Muniz seguia para Paris, onde freqüentaria a Escola Superior de Aeronáutica. Foi durante sua estada em Paris que Muniz projetou seus três primeiros aparelhos, que designou, respectivamente, M1, M3 e M5, dos quais apenas o último chegou efetivamente a ser construído. No ano seguinte, Muniz foi incorporado à missão militar brasileira para acompanhar a fabricação e testar aviões que estavam sendo construídos para o Brasil na França. Graças a essa circunstância, pode conhecer por dentro três companhias aeronáuticas da época: Caudron, Faerman e Potez.
Familiarizando com os processos produtivos dessas empresas, Muniz conseguiu o apoio do chefe da missão brasileira na França, general Machado Vieira, para a idéia de construir o último de seus projetos realizados na França, o avião Muniz M5. O general Vieira obteve recursos junto ao governo Federal e a companhia Caudron foi contratada para construir o aparelho.
Em Paris, na empresa Caudron, o general Machado Vieira, à esquerda,
chefe da
Missão Militar Brasileira, visita a construção do M5, acompanhado por Guedes
Muniz.
Fonte: Arquivo Guedes Muniz
Testado em Paris, o M5 foi desmontado e enviado ao Rio de Janeiro. Remontado no Campo dos Afonsos, o aparelho foi apresentado ao público em 10 de julho de 1931, na solenidade do décimo segundo ano de fundação da Escola de Aviação Militar. Getúlio Vargas, então chefe do Governo Provisório, presidiu a comemoração e, para demonstrar sua confiança na capacidade técnica brasileira de projetar e fabricar aviões, realizou um pequeno vôo na aeronave. O fato teve grande repercussão e Guedes Muniz tornou-se conhecido. O M5 era um avião de fuselagem de madeira, monoplano de asa baixa, de 900 quilos, cinco horas de autonomia, consumo de 24 litros de gasolina a 200 gramas de óleo por hora, 12 metros de envergadura e seis metros e 40 centímetros de comprimento. Era dotado de um motor de 100 cavalos de força e levava dois passageiros.
Em julho de 1931,
no aniversário da Escola de Aviação,
Getúlio Vargas voou no aparelho denominado Muniz M5,
para demonstrar sua
confiança na capacidade dos técnicos brasileiros.
Da esquerda para a direita,
aparecem Guedes Muniz,
Getúlio, Darcy Vargas, o chefe da escola,
e o piloto
Adherbal Oliveira.
Fonte: Arquivo Guedes Muniz
De volta ao Brasil em 1931, Muniz trazia de sua experiência européia a convicção de que a “felicidade daquela gente estava toda baseada na sua industrialização. Não eram simplesmente países produtores ou consumidores de alimentos outras matérias-primas. Eram países criadores de instrumentos de progresso e de riqueza”. (1) Essa mentalidade industrializante se associava ao interesse no desenvolvimento de tecnologia nacional.
Em 5 de agosto de 1931, Muniz proferia uma conferência na Escola Politécnica do Rio de Janeiro. Foi saudado pelo professor Dulcídio Pereira, cujas palavras denotavam a motivação militar do pensamento nacionalista que inspirava a Muniz e a outros militares. Para Pereira, a Escola Politécnica deveria contribuir firmemente para a superação da “época das tentativas empíricas”, em que se asfixiava a “indústria incipiente, para permitir o advento da técnica sistematizada”. Isso porque “a solução dos problemas brasileiros tem de ser achada em brasileiro”. Pereira julgava ser indiscutível que as necessidades militares tivessem “determinado a solução dos grandes problemas técnicos”. A Segunda Guerra teria acelerado a solução de um sem número de problemas metalúrgicos, químicos, físicos, médicos e sociais. Para ele, as rádio comunicações deviam muito à guerra, a cujos apelos teriam se mobilizado “os laboratórios de pesquisa do mundo”. Por essa razão, para ele, os engenheiros que a Politécnica formasse deveriam automaticamente fazer parte da reserva das Forças Armadas, e a escola deveria constituir-se num laboratório a serviço da defesa nacional”. (2)
Guedes Muniz, em sua conferência, avançava diversas idéias sobre o desenvolvimento da tecnologia nacional no campo aeronáutico. Para ele, não eram os aviões em si que deviam merecer as principais atenções, mas sim saber como se poderia formar engenheiros no Brasil capazes de projetá-los. Muniz propunha que a Politécnica abrigasse um laboratório central de pesquisas aeronáuticas, que teria como objetivo ensaiar materiais e peças. Pensava na constituição do que denominava uma universidade técnica, onde seriam realizados “os ensaios comparativos, as pesquisas científicas, os estudos de longo alcance, como, por exemplo, o da seleção de madeiras de que todos nós falamos, mas que ninguém conhece do ponto de vista de sua aplicação na indústria aeronáutica. Esse laboratório selecionará os aços nacionais, estudarão os cadernos de encargos sob os quais se regerão as indústrias siderúrgicas brasileiras, a estandardização das indústrias mecânicas e tudo o mais”. (3)
Para Muniz, competia à Politécnica “preparar o advento da técnica e da ciência aeronáutica entre nós, a fim de que em breve, quando inevitavelmente surgir a primeira usina de aviação, nós não tenhamos de importar do estrangeiro os engenheiros que vão dirigi-la, que irão trabalhar nos gabinetes de estudos, nos ensaios de materiais e nas pesquisas aerodinâmicas”. Essas providências permitiriam “libertar o Brasil dos mercados estrangeiros de aviação”, pois o Brasil não deveria, em aviação, “viver da tutela dos outros povos”. (4) O Muniz M5 não chegou a ser fabricado em série, mas seu sucesso abriu caminho para a fabricação de outra aeronave projetada por Gudes Muniz, que iria dar início à produção seriada de aviões no Brasil: O Muniz M7.
Notas
(1)
MUNIZ, Antônio Guedes. Depoimento. Rio de
Janeiro, 18 de setembro de 1983.
(2) PEREIRA, Dulcídio.
Saudação do professor Dulcídio Pereira ao major
engenheiro Antônio Guedes Muniz em 05 de agosto de 1931, na Escola Politécnica
do Rio de Janeiro – Arquivo Guedes Muniz –.
(3) MUNIZ , Antônio Guedes.
Conferência na Escola Politécnica, em 5 de agosto de
1931. Arquivo Guedes Muniz.
(4) Ibidem