a fantasia no lugar da ciência
Muitos
projetos de aeronaves careciam de mínima base científica e, não obstante,
seus autores envidavam esforços obstinados para demonstrar sua viabilidade e
obter recursos para sua construção. Alguns conseguiram alguma repercussão na
imprensa e a apreciação de seus trabalhos por comissões governamentais,
criadas para julgar seus pedidos de financiamento.
Em 1888,
João Autto de Magalhães Castro concebeu um estranho engenho, cuja forma
assemelhava-se a uma combinação de pássaro e peixe, denominado Sistema
ornycthoide
Relatório e desenho do aerostato denominado 21
de abril, datado de 15 de fevereiro de 1890.
Fonte: Arquivo nacional
Em 1890,
o mineiro Leopoldo Silva solicitou patente do Aerostato 21 de abril. Nascido em
1849, agricultor da cidade de Cantagalo, no Rio de Janeiro, Silva apresentou um
modelo de linhas singelas. Na verdade, seu maior interesse residia na
possibilidade de exploração comercial da navegação aérea. Silva foi o
primeiro brasileiro a pensar na organização de uma companhia de transporte aéreo.
Para construir a “Sociedade Particular de Navegação Aérea”, ele
tencionava emitir ações ao portador no valor de 100 mil réis cada, prometendo
aumentar seu valor, caso fossem bem sucedidas as experiências que teria
iniciado com o balão dirigível Cruzeiro do Sul, outra denominação para o
mesmo aparelho objeto do pedido da patente de 1890. No ano seguinte, Silva
solicitou e obteve patente de seu engenho na Alemanha, seguindo o costume,
corrente entre os inventores brasileiros da época, de pedir privilégio de
invenção em países estrangeiros. Mas tudo era imaginação. Em 1892,
acometido de uma doença fulminante, Leopoldo Silva falecia. ( 2
)
Em 1890, Leopoldo
Silva emitiu ações ao portador
para captar recursos para a construção de seu
dirigível Cruzeiro do Sul.
Fonte: Museu Aeroespacial do Rio de Janeiro.
Nesse
mesmo ano Miguel Velez apresenta outro projeto fantástico: o aerostato dirigível
Trem Velez, que combinaria as características de um balão e de um trem. O
engenho seria suspenso no ar por gás, contido em um envelope, como num balão,
mas seria dirigido por trilhos suspensos no ar, como um trem.
Memorial descritivo de um sistema de navegação aérea de 20 de setembro de 1890..
Fonte: Arquivo Nacional
Em 1901,
o alferes de infantaria do Exército, Paulino Júlio de Almeida Nuro, solicitou
patente de um bizarro engenho denominado Volátil Bartholomeu de Gusmão, uma
fantástica máquina em forma de pássaro.
Pedido de patente do bizarro engenho denominado Volátil
Bartholomeu de Gusmão,
uma combinação de dirigível com ornitópteros.
Fonte: Arquivo Nacional – documento n.º 3.500.
Na
passagem do século, continuavam a surgir projetos de dirigíveis. Em 1901,
Carlos Rostaing Lisboa apresentou o projeto de um dirigível denominado Brasil.
Nascido em 1880, Lisboa contava com apenas 21 anos quando depositou seu pedido
de patente. Seguindo o exemplo de diversos inventores, solicitou e obteve
patente em diversos países como a Alemanha e a Rússia.
Desenho
explicativo do pedido de patente da aeronave Brasil, projetada por Carlos
Lisboa, datado de 1902.
Fonte: Arquivo Nacional – documento n.º 3.252
Seguindo a praxe
dos inventores, Carlos Lisboa patenteou seu projeto
em diversos países. Esta
é a patente russa do engenho denominado Brasil.
Fonte: Museu Aeroespacial
Outro
militar que concebeu aeronaves fantásticas foi o Tenente Sayão Lobato. Em fins
de 1903, ele solicitou o privilégio de um estranho engenho: um dirigível cujo
invólucro tinha a forma de um peixe, e a barca a de uma embarcação sobre
rodas dotadas de complexas engrenagens.
Pedido de patente
de 1903. Esse bizarro engenho foi imaginado pelo tenente Sayão Lobato.
Fonte: Arquivo Nacional – documento n.º 5.830
Gastão
Madeira foi um dos primeiros brasileiros a projetar aeronaves. Já em 1888, aos
19 anos de idade, iniciava seus estudos e observações sobre vôo das aves.
Madeira combatia a opção pelos aparelhos mais leves do que o ar, julgando que
a solução da navegação aérea residiria em engenhos mais pesados do que o
ar, a exemplo dos pássaros. Para ele a dedução das leis básicas da
aerodinâmica
só poderia ocorrer a partir da observação do vôo dos pássaros, devendo-se
fazer convergir os esforços para esse fim. Os aparelhos mais leves do que o ar
estariam em desacordo com a natureza.( 7
)
O dirigível
concebido por Gastão Madeira em 1890.
Fonte: Arquivo Nacional
Por
outro lado, o Capitão José da Luz, veterano da guerra do Paraguai, voou num
balão esférico livre em 1906, em Recife.
Notas
(1)
SOUZA, José Garcia de. A
verdade sobre a história da aeronáutica. Op.
cit. p. 511.
(2)
SILVA, Leopoldo. Relatório
e desenho do aerostato denominado 21 de abril,
Rio de Janeiro, 15/02/1890.
(3) VELEZ, Miguel. Memorial
descritivo de um sistema de navegação aérea.
Rio de Janeiro , 20 de setembro de 1890. (Documento Arquivo Nacional).
(4)
NURO, Paulino Júlio de Almeida.
Locomoção aérea por meio de asas
s.n.t. Documento n.º 3.500 do Arquivo Nacional e
SOUZA, José Garcia de. A
evolução da Aeronáutica no Brasil. Ed. Pelo
Aeroclube do Brasil, Rio de Janeiro, s.d. Biblioteca do Museu Aerospacial.
(5)
LISBOA, Carlos Rostaing. Memorial
descritivo (pedido de patente). Rio de Janeiro,
6 de fevereiro de 1901. Documento n.º 3.252 do Arquivo Nacional.
(6)
LOBATO, Sayão. Mechanica
dos aerostatos. Porto Alegre. 1906. Documento
n.º 5.830 do Museu Nacional. (6)
(7)
MADEIRA, Gastão Revista
do Instituto Histórico e geográfico de São Paulo.
São Paulo, Vol. XXXVII, 1937, p. 39