josé do patrocínio e o dirigível santa cruz
Nascido
em Campos, Estado do Rio de Janeiro, a 9 de outubro de 1853, José do Patrocínio
tornou-se conhecido por sua participação na campanha abolicionista.
Jornalista, orador de talento e político, Patrocínio dedicou os últimos anos
de sua vida ao projeto e construção de dirigíveis.
Desenho
explicativo do pedido de patente do aerostato concebido por José do Patrocínio
Fonte: Arquivo Nacional
Aos 15
anos de idade deixou sua cidade natal seguindo para a Capital do Império. Uma
vez no Rio de Janeiro, conseguiu um emprego na Santa Casa de Misericórdia e graças
a sua vivacidade, tornou-se aprendiz de farmácia. Em 1872, aos dezenove anos de
idade, entrou para a Faculdade de Medicina, onde, dois anos mais tarde,
formou-se em farmácia. Mas, por falta de capital para abrir um estabelecimento
próprio, ingressou no jornalismo, profissão que exerceria até a morte.
Desenho
explicativo do pedido de patente de um aparelho propulsor para aerostato, de
José do Patrocínio.
Fonte: Arquivo Naciona
Como
jornalista, tomou posição a favor de Júlio César Ribeiro de Souza, quando
este contestou a originalidade do projeto do dirigível La France, concebido
pelos militares franceses Renard e Krebb. Patrocínio lembrou que o inventor
brasileiro não tivera mais do que uma centena de contos de réis para efetuar
suas experiências, enquanto os franceses haviam podido contar com quantias mais
de 10 vezes superiores.
Desenho
explicativo do pedido de patente de um aparelho propulsor para aerostato, de
José do Patrocínio.
Fonte: Arquivo Nacional
Proclamada
a República, inicia-se um período de dificuldade para Patrocínio, que se
opunha ao novo regime. Em 1892, ele foi deportado para o Amazonas, sendo
anistiado meses mais tarde. No ano seguinte, irrompendo a Revolta da Armada,
Patrocínio escondeu-se para fugir à prisão. Durante esse retiro, deteve-se
sobre uma idéia que o assaltava desde o primeiro ano da faculdade: voar num balão.
Desenho
explicativo do pedido de patente do aeróstato de Santa Cruz
Documento Memorial descritivo do aeróstato Santa Cruz, datado de
1902.
Fonte: Arquivo Nacional
Em 1897,
a normalidade política já voltara ao país, e Patrocínio dedicava-se ao
projeto de um dirigível. Com a ajuda de um amigo, Magalhães Viégas, chefe de
fundição do Arsenal da Marinha, trabalhava nos fins de semana no projeto. Na
virada do século, o balão era o principal preocupação de Patrocínio. Em
1901, o projeto estava pronto. O inventor batizou sua aeronave de Santa Cruz. O
aparelho traria algumas inovações: a estrutura seria de alumínio e a barca e
o invólucro formariam um todo rígido e integrado.
O Presidente da
República Campos Salles visita o hangar onde José do Patrocínio tentava
construir o dirigível Santa Cruz.
Fonte: Museé de L`Air Le Bourget
No projeto, Patrocínio pretendia utilizar simultaneamente conceituais dos aparelhos mais leves e mais pesados do que o ar. O balão contaria com asas e um invólucro contendo hidrogênio ou gás de iluminação bem como balonetes de ar quente para provocar a ascensão do aparelho.
Em
meados de 1901, Patrocínio instalava um hangar no bairro de São Cristóvão
para a construção do aparelho. Mas em 12 de dezembro uma violenta tempestade se abatia sobre o Rio de Janeiro, destruindo o hangar e deixando um saldo de
dois mortos e cinco feridos.
Em 1902,
Patrocínio voltava ao trabalho decidido a concluir o balão e anunciando para 7
de setembro, data nacional, o seu primeiro vôo. O inventor sonhava uma viagem
do Rio de Janeiro a Santos, terra de Bartholomeu de Gusmão, levando consigo seu
amigo o poeta Olavo Bilac. Mas os meses passavam e a construção do dirigível
não evoluía. Nem mesmo a visita ao hangar do Presidente da Republica, Campos
Salles, resultou em recursos financeiros para a construção do balão. Uma
emenda de autoria de Nilo Peçanha era apresentada no Congresso, propondo um auxílio
de 40 contos de réis a Patrocínio e Augusto Severo dessem continuidade a suas
experiências. Mas a emenda recebeu violenta oposição de Barbosa Lima, que
lembrou as posições de Patrocínio contrárias a Floriano Peixoto. A realidade
caminhava em sentido diverso dos planos do inventor que, naquele ano, contraía
tuberculose.
Doente e
sem recursos, Patrocínio recebeu a visita do poeta e amigo Olavo Bilac, que o
encontrou vivendo em extrema penúria. Para tentar realizar seu projeto, Patrocínio
havia vendido sua casa e seu jornal, e morava num pequeno cômodo ao lado do
hangar. Bilac o descreve “magro, esquelético, com olhos encovados no fundo
das órbitas”. ( 2 )
Consciente da gravidade de sua doença, Patrocínio tinha esperança de viver mais um ano para concluir o balão e voar “longe! Respirando o ar de Deus, o grande ar virgem das alturas”. ( 3 ) Mas a morte chegou primeiro, aproximando o inventor do perfil trágico dos poetas românticos de sua época, muitos deles seus amigos, na sua obstinação solitária de construir um dirigível.
Notas
(1)
PATROCÍNIO, José do. Memorial
descritivo do aerostato Santa Cruz. Rio de
Janeiro, 1901, ( Documento Arquivo Nacional).
(2)
Citado por AGUIAR, Pinto de. Em Os percursores
brasileiros da aeronáutica. Op. cit. p. 14
(3)
Idem