1889: o projeto de um helicóptero
Antônio Henrique da Justa
nasceu em Pacatuba, Ceará, em 1874. Filho de uma família de parcos recursos,
Justa foi um autodidata. Em 1894, tornou-se escriturário da Secretaria da
Fazenda do Ceará. Durante cinco longos anos, reuniu recursos para custear a
publicação de um folheto denominado "Navegação aérea", em que
apresenta o projeto de um helicóptero.(
1 ) Na obra, Henrique da Justa
demonstrava conhecimento das experiências aeronáuticas que se realizavam em
todo o mundo e procurava, sobremaneira, afastar de seu trabalho qualquer conotação
quixotesca: "Há muito que o homem procura viajar nos ares (...) a inumerável
coleção de máquinas de todo gênero e de toda espécie, a efervescência do
pensamento e todos os projetos que dia a dia aparecem, alguns levados a efeito,
outros não passando de cabeça imaginativa de seus autores apenas engrossam o
contingente da luta. Parece que em nenhuma outra causa se empenhou mais a
humanidade". (
2 )
Na primeira parte do trabalho,
Justa expõe as duas tendências em que se dividiam os pesquisadores aeronáuticos:
de um lado, os adeptos dos aparelhos mais leves do que o ar, os balões e dirigíveis,
e, de outro, aqueles para quem o futuro da aeronáutica encontrava-se no
desenvolvimento dos aparelhos mais pesados do que o ar. Justa descrevia as
experiências de Langley sobre o Rio Potomac, nos Estados Unidos, e as mal
sucedidas tentativas de Ader na França, argumentando que, apesar dos insucessos
das experiências aeronáuticas até então realizadas, os governos dos dois países
estavam convencidos da exeqüibilidade da navegação aérea. Citava o caso da
Comissão Americana de Artilharia e Fortificações, que havia decidido
consagrar a soma de 125 mil francos à pesquisa e desenvolvimento de um aparelho
voador capaz de reconhecer posições inimigas e desempenhar funções
ofensivas. A pesquisa seria comandada por um general norte-americano, sob a direção
técnica de Langley, que, mesmo depois do insucesso de suas experiências sobre
o Rio Potomac, continuava a merecer a confiança do governo e das forças
armadas de seu país.
A idéia
do helicóptero remonta ao século XV e foi formulada por Leonardo da Vinci.
Posteriormente, diversos inventores tentaram desenvolvê-la, sem sucesso. Em
1845, Cossus projetou um aparelho movido a vapor que, no entanto, não conseguiu
elevar-se do solo em função do peso excessivo do propulsor. Em 1878, Castel
projetou e construiu outro aparelho que, durante a primeira experiência,
chocou-se com um muro, sem conseguir voar ou manter-se no ar. No mesmo ano,
Forlani projetou um aparelho que elevou-se a 13 metros de altura, sem, no
entanto, lograr voar.( 3 )
Na opinião de Justa, o helicóptero
vinha sendo abandonado pelos pesquisadores aeronáuticos, não obstante
constituir-se numa máquina de concepção superior a todas as outras :
"Como conceber uma máquina aérea à perfeição? Devendo partir
simplesmente de seu pouso sem necessidade de carreira horizontal iniciante sobre
o solo, desprezando estações inconvenientes e elevando-se no ar calmamente em
moderado movimento ascensional, como se fosse um balão, depois orientando-se e
tomando a direção destinada, finalmente podendo voltar e pousar com a mesma
facilidade com que partiu.
Não ter-se-ia que
preparar terrenos, nem usar de meios de lançamentos (...). O helicóptero
seria a máquina voadora por excelência se não estivesse no estado de
abandono em que parece achar-se (...) seria a máquina ideal se depois de
abandonar o solo pudesse se converter em um aeroplano, voltando novamente a seu
tipo no momento do pouso”. ( 4
)
O helicóptero de Justa seria um
aparelho composto de um conjunto tubular leve, de aço e alumínio, formado um
estrutura retangular. O aparelho seria movido por um grupo propulsor de dois
motores à explosão, alimentados por álcool ou derivados de petróleo. Os
motores acionariam, as quatro turbinas por ar comprimido que, por sua vez,
transmitiram força para quatro hélices dispostas nas extremidades da aeronave,
juntamente com as turbinas. O ar comprimido chegaria às turbinas através da própria
tubulação que comporia a estrutura do aparelho que, por sua vez, seria isolada
termicamente com tecido de lã para evitar que o ar quente em seu interior se
resfriasse em contato com a atmosfera.
Os comandos estariam
concentrados numa cabine, solidária com a estrutura e disposta no centro da
aeronave. Seriam acionados por eletricidade ou pelo próprio ar comprimido que
movimentaria as turbinas. Um pequeno dínamo movido pelos motores a explosão
garantiria luz interna e energia para o farol externo, que seria empregado em
operações noturnas. O Aeroscapho seria capaz de pousar e decolar na vertical e
voar na horizontal. Suas hélices seriam dotados de passo variável, de forma a
oferecer propulsão horizontal a aeronave. O grupo propulsor totaliza 366
cavalos, suficientes, segundo os cálculos de Justa, para elevar os 432 quilos
do aparelho vazio, além do piloto e combustível. A força ascensional total
seria da ordem de 840 quilos.
A concepção do
“Aeroscapho” apresentava uma série de idéias originais, todas elas
empregadas, posteriormente, na construção de helicópteros e aviões, tais
como: a concepção de um sistema motor composto e motores e turbinas, a
idéia da aplicação de álcool à navegação aérea, um combustível
nacional, a hélice de passo variável, a concepção de uma cabine fechada, a
aplicação de materiais metálicos, a idéia de vôo noturno. O projeto
revelava bases técnicas consistentes. Era mais do que a vontade subjetiva de um
inventor.
Henrique da Justa ressalvava que
os cálculos apresentados apenas visavam demonstrar a viabilidade da idéia e
que a construção efetiva do aparelho dependia de estudos complementares, que ,
por sua vez, dependiam de recursos de que ele não dispunha. A publicação do
folheto era parte de um esforço para obtê-los: “Intento propugnar por uma
causa de progresso que, atualmente, preocupa a atenção da ciência, da
civilização, dos governos e países modernos. Tenho convicção de que não
trato de uma quimera”. Afastando de si a sombra de extravagância que se
projetava sobre os inventores brasileiros do século XIX, Justa pedia a atenção
do governo, ao mesmo tempo em que vaticinava: “ A indiferença da França
sobre as descobertas do vapor fê-la perder uma esplêndida página na
história humana”. ( 5
)
O inventor encaminhou seu pedido
ao Ministério da Guerra. Mas os militares não se sensibilizaram com o projeto.
Sem recursos, construiu apenas um modelo em escala do aparelho. Em 1909, tomado
por uma crise depressiva, Antônio Henrique da Justa suicidou-se aos 35 anos de
idade.
Romeu Corsini, autor de vários projetos de aeronaves, é de opinião que o Aeroscapho poderia ter voado, se tivesse chegado a ser construído. ( 6 ) Em Valentigney, Suíça, a 2 de outubro de 1921, Etienne Oehmichen fez voar um helicóptero cuja concepção era muito próxima da imaginada por Justa. Era um helicóptero dotado de quatro rotores, de estrutura tubular, cujas hélices estavam dispostas nas extremidades do aparelho. O sistema de transmissão era mais comum do que aquele concebido por Justa: uma árvore central recebia a força do motor e a transmitia para as hélices através de correias. Justa não havia tratado de quimeras.
Notas
(1) STUDART, Guilherme . Dicionário Bio – bibliográfico Cearense , Vol. I –citado nos Anais da Fundação Santos Dumont de 1956 , publicado no n.º 56 da Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, São Paulo , 1959 , p. 330.
(2)
JUSTA , Antônio Henrique da. Navegação
aérea. Op. cit. p. 7.
(3) Tableau d` aviation –E . Diluaide Editor , Paris , s .d, (Museu da Aeronáutica de São Paulo ).
(4) JUSTA, Antônio Henrique da. Navegação aérea. Op. cit. p. 14
(5) JUSTA, Antônio Henrique da. Navegação aérea. Op. cit. p. 31
(6) CORSINI, Romeu. De
Da Justa a Oehmichen in: Navegação aérea.
Op. cit. p.33