os dirigíveis de augusto severo
Augusto
Severo de Albuquerque Maranhão, ou simplesmente Augusto Severo, como ficou
conhecido, nasceu a 11 de janeiro de 1864, em Macaíba, pequena cidade do Rio
Grande do Norte, filho de uma conhecida família potiguar. De seus 12 irmãos,
dois chegaram à chefia do governo estadual em 1892. Em 1893, ocupou a vaga
deixada no Congresso Nacional por um de seus irmãos que assumia o Governo do
Rio Grande do Norte. A partir daí, foi reeleito por sucessivas legislaturas, até
sua morte precoce, em 1902, aos 38 anos.
Severo
foi durante três anos aluno da Escola Politécnica do Rio de Janeiro, deixando
de completar o curso em função de problemas familiares que o levaram de volta
ao seu estado natal. Seu interesse pela aeronáutica e pela mecânica era
antigo. Realizou experiências com um balão cativo em Recife e, durante o
movimento republicano, projetou seu primeiro dirigível, denominado Potiguarania,
que nunca chegou a ser construído. (
1 )
Em
fins do século XIX, diversos inventores procuravam aumentar a estabilidade e
dirigibilidade dos balões. O desenvolvimento das aeronaves mais leves do que o
ar estava limitado pelo problema
fundamental dos propulsores. Giffard havia realizado, em 1852, um vôo bem-
sucedido com um dirigível impulsionado por um motor a vapor. A experiência, no
entanto, não teve continuidade, pois era evidente que o motor a vapor
apresentava um peso excessivo para aplicação aeronáutica. Além disso, o
hidrogênio, um gás inflamável, era então empregado como elemento
ascensional, o que tornava impraticável a aplicação do motor a vapor em dirigíveis.
Em
1886, dois militares franceses, os capitães Charles Renard e Arthur Krebs,
construíram e voaram em um dirigível movido por um motor elétrico. A aeronave
denominada La France, fora inteiramente financiada pelo ministério da
guerra francês. O motor elétrico, no entanto, apresentava o mesmo problema
verificado com o motor a vapor para aplicação aeronáutica: peso excessivo em
relação ao empuxo possível com a tecnologia disponível na época.
Santos
Dumont retomou as experiências com dirigíveis valendo-se de motores a explosão
e, a partir daí, diversos outros inventores seguiram sua trilha, estudando os
problemas da dirigibilidade e estabilidade das aeronaves, ainda por resolver nos
primeiros anos do século XX. Augusto Severo partilhou desse esforço,
oferecendo uma contribuição à resolução do problema da estabilidade dos
dirigíveis.
No ano seguinte, a jovem República brasileira irá enfrentar seu primeiro teste de força. À sangrenta Revolução Federalista do Rio Grande do Sul segue-se a Revolta da Armada que teve início em setembro de 1893, liderada por altos oficiais da Marinha de Guerra. Os revoltosos dominaram a maior parte da esquadra e conquistaram o controle da Baía da Guanabara, totalizando 16 navios de guerra e 18 embarcações mercantes. Com essas forças, bombardearam a Capital, exigindo a renúncia de Floriano Peixoto. O momento era de extrema tensão. A República estava ameaçada por um movimento de fundo monárquico. Sob o pretexto de garantir as vidas e o patrimônio das empresas estrangeiras que operavam no Brasil, alguns embaixadores ameaçavam com a invasão do território nacional por tropas de seus países. ( 2 )
Em
1894, no Campo do Realengo, no Rio de Janeiro,
o dirigível Bartholomeu de Gusmão,
projetado por Augusto Severo,
e construído pela
Casa Lachambre, em Paris,
e pelo próprio inventor, no Brasil.
Fonte: Museé de L`Air Le Bourget
Momentaneamente
sem esquadra para atacar os navios sublevados , Floriano Peixoto acolheu com
simpatia a proposta do deputado Augusto Severo, de contribuir um dirigível
"entrevendo a possibilidade do emprego do balão na luta contra os
revoltosos". ( 3 ) Empregar balões em operações militares não era uma idéia
estranha às Forças Armadas do Brasil. Durante a Guerra do Paraguai, balões
cativos haviam sido utilizados para observação de posições inimigas, e, além
disso, era conhecido o interesse das forças armadas de outros países pela
aplicação de balões como arma de guerra. Até 1893, no entanto, apenas balões
cativos e balões livres haviam sido usados, os primeiros para observação de
movimento de cercos por mensageiros. O dirigível, com suas possibilidades
ofensivas, ainda não começara a ser empregado.
Em 1894, no Campo do Realengo, no Rio de Janeiro, o dirigível Bartholomeu de Gusmão
Fonte: Museé de L`Air Le Bourget
Dessa
forma, Augusto Severo viajou a Paris em 1893 para mandar construir e acompanhar
a fabricação do dirigível Bartholomeu de Gusmão, pela conhecida casa Lachambre
& Machuron, responsável pela construção de vários dos balões de
Santos Dumont.
O Bartholomeu de Gusmão tinha 60 metros de comprimento e a barca media 52
metros, o que pressupunha uma carga útil significativa. A estrutura era de
bambu. Severo teria pretendido fazê-la de alumínio, mas o material não era
disponível no Ministério da Guerra e Severo não dispunha de recursos para
adquiri-lo.
O conde Zepelin concebeu seus aparelhos como um todo rígido, anulando a separação entre a barca e o envelope contendo o gás, e construindo o invólucro de uma malha de liga de metal leve, que também apresentava rigidez. Até Zepelin, todos os projetos de dirigíveis, inclusive os de Severo, haviam usado tecido para descobrir o invólucro com o gás. A concepção da estrutura rígida, devida a Severo, antecedeu em 14 anos ao primeiro vôo de Zepelin sobre o Lago Constança.
No dia 14 de fevereiro de 1894,
o dirigível realizava sua primeira ascensão. Contudo,durante os testes de
estabilidade do aparelho, partiu-se a barca, danificando a estrutura do
aparelho. Ao mesmo tempo, a guerra civil seguia seu curso. Floriano Peixoto
comprava, na Europa, uma nova esquadra, composta de belonaves usadas, de maneira
a poder travar combate o mais rapidamente possível. Em março de 1894, a
esquadra estava pronta par o confronto e prestes a irromper na Baía de
Guanabara. Os revoltosos resolveram, então, evitar travar uma batalha decisiva
e tomaram o rumo do alto mar. O perigo iminente estava afastado e tinha início
o declínio da revolta. Findo o movimento, o governo se desinteressou pelas
experiências de Severo. A aeronave não recebeu os reparos necessários, sendo
abandonada.
O relativo insucesso da experiência não afastou Severo das experiências aeronáuticas. Mas, a partir de então, contou apenas com seus recursos particulares para dar seqüência a seus trabalhos. Em 1902, oito anos depois da ascensão do Bartholomeu de Gusmão, Severo estava novamente em Paris para acompanhar a construção e realizar um vôo com seu novo dirigível, denominado Pax. O aparelho tinha 30 metros de comprimento, valia-se de 2.000 metros cúbicos de hidrogênio para elevar-se, além de dois motores de 16 e 24 cavalos para propulsão horizontal. Realizados os ensaios com o aparelho preso ao solo, no parque aerostático de Vauginard, em Paris, Severo, acompanhado de um mecânico, elevou-se aos ares na aurora de 12 de maio. Muitas pessoas acompanhavam a experiência. A imprensa européia noticiara o evento.
A
partida do Pax. Nesta foto, pode-se observar nitidamente
a estrutura semi-rígida
do balão.
Na popa, Augusto Severo comandando a aeronave.
Fonte: Museé de L`Air Le Bourget
O segundo e derradeiro projeto
de Severo, o balão Pax, voou em
Paris em 1902, quatro anos antes do histórico vôo do inventor alemão. Para
alguns, Severo apresentara uma idéia nova, e seu aparelho seria o “primeiro sistema aeronáutico rígido que se
mostrava”. (4 ) O fato é que o inventor brasileiro concebeu um aparelho que
oferecia respostas tecnicamente consistentes para a questão da estabilidade e
dirigibilidade dos balões.
Segundo
Domingos de Barros, Severo teria se inspirado nos peixes para imaginar sua
aeronave. "Guiando-se, inteligentemente pelo exemplo da Natureza,
considerou o aerostato, imerso no mar fluido do ar, como o equivalente do
habitante imerso e livre do seio das águas, isto é, como desempenhando o
papel, a função de uma espécie de peixe do ar. E guardadas as proporções,
projetou e construiu o seu enorme habitante do ar, tomando por modelo o
habitante do mar - o peixe. Assim como as partes sólidas do peixes estão
apoiadas e presas a uma espinha central, rígida, servindo descentro firme de
resistência, o arquiteto brasileiro de aeronave resolveu consolidar o conjunto
aerostático por uma só viga sólida central, para que ela pudesse prender-se,
firmemente, em um conjunto robusto e unificado todas as partes diversas do
enorme navio do ar". (
5 )
A
partida do Pax. Na popa, Augusto Severo.
Fonte: Museé de L`Air Le Bourget
O Pax O aparelho representava uma nova concepção de dirigível. Até então,
os aparelhos eram compostos de duas partes distintas, unidas por cordas ou fios
de arame: o invólucro contendo o gás e a barca contendo o motor, local em que
viajava o aeronauta. A separação entre os dois corpos causava um movimento
oscilatório durante o vôo e provocava considerável perda de velocidade,
energia e capacidade de manobra, além de representar um fator permanente de
acidentes. Santos Dumont, por mais de uma vez, sofreu a perda de controle de seu
aparelho em função da flacidez do envelope contendo o gás.
Severo
concebeu seu aparelho como um todo rígido, fazendo coincidir o eixo de resistência
ao avanço com o eixo de propulsão, instalando a hélice propulsora na
extremidade posterior do eixo longitudinal que atravessava o envelope contendo o
gás, fazendo com que a barca e o invólucro constituíssem um mesmo corpo. A
barca e o eixo longitudinal do envelope contendo o gás formavam um trapézio,
cuja base inferior era constituída pela primeira e a base superior pelo
segundo. Dessa maneira, a oscilação era reduzida, diminuindo as perdas de
velocidade, capacidade de manobra e superando uma das causas de freqüentes
acidentes.
O conde Zepelin concebeu seus aparelhos como um todo rígido, anulando a separação entre a barca e o envelope contendo o gás, e construindo o invólucro de uma malha de liga de metal leve, que também apresentava rigidez. Até Zepelin, todos os projetos de dirigíveis, inclusive os de Severo, haviam usado tecido para descobrir o invólucro com o gás. A concepção da estrutura rígida, devida a Severo, antecedeu em 14 anos ao primeiro vôo de Zepelin sobre o Lago Constança. O segundo e derradeiro projeto de Severo, o balão Pax, voou em Paris em 1902, quatro anos antes do histórico vôo do inventor alemão.
Assim, o Pax aprofundava
a concepção da aeronave semi-rígida já presente no Bartholomeu de Gusmão.
Era uma aeronave menor, melhor concebida e realizava manobras a 400 metros de
altura com perfeição. A barca formava um trapézio com o eixo longitudinal do
dirigível, a exemplo do primeiro aparelho. Durante cerca de 10 minutos, o Pax
realizou evoluções em todas as direções, suave e silenciosamente. Mas,
subitamente, uma explosão rompeu a placidez da manhã, e o dirigível foi
consumido rapidamente por chamas, precipitando-se sobre uma avenida em Paris e
causando a morte imediata de Severo e do mecânico Sachê, que o acompanhava.
As
razões do acidente provocaram controvérsia. É certo que a barca projetada
originalmente de alumínio fora construída de bambu, material menos resistente
e mais pesado do que o metal. Em função desse fato, Severo teve necessidade de
aumentar a quantidade de hidrogênio, inicialmente prevista para 1900 metros cúbicos,
elevando esse número para 2500 metros cúbicos. Para tanto suprimiu os
balonetes previstos no projeto e cuja função era exatamente a de evitar contrações
e expansões repentinas do hidrogênio que poderiam causar a perda de controle
ou explosão da aeronave. Severo largara às cinco horas e 15 minutos da manhã
de 12 de maio. O balão havia recebido o hidrogênio no hangar. Durante o vôo,
o sol nascera, aquecendo o ar e causando expansão do hidrogênio contido no
envelope. Uma das válvulas de segurança estava situada próxima ao motor. O
hidrogênio comprimido teria se projetado sobre o motor aquecido e causado a
explosão.
Segundo
o jornalista Georges Caye, testemunha do acidente, Severo havia imaginado
utilizar motores elétricos e pilhas muito potentes, mas não podendo demorar-se
em Paris (seu mandato de Deputado chamava-o de volta ao páis), aconselharam-no
a substituir os motores elétricos, cuja construção seria lenta e onerosa, por
motores a explosão Buchet. O inventor tinha receio de empregar o motor a
petróleo: "Se eu dispusesse ainda de dinheiro e de tempo não hesitaria um
só instante em mandar construir meus motores elétricos (...) considero com
pavor esse foco de calor em baixo de meu balão". (
6 )
O
acidente com Severo talvez pudesse ter sido evitado mediante a fabricação da
barca de alumínio e a manutenção
dos balonetes, ou, ainda, através do emprego do motor elétrico no lugar do
motor a explosão. Na verdade, a escassez de recursos disponíveis pelo inventor
contribuiu significativamente para o acidente. Em carta enviada de Paris a seu
cunhado, Pedro Velho, ele afirma que os arranjos finais para o vôo do Pax
demandavam cinco mil francos e que não sabia como obtê-los, lamentando que até
pequenas jóias de família tivessem sido consumidas por seu projeto. (
7 )
Desde fins do século XIX, toda
trajetória dos dirigíveis está marcada por inúmeros acidentes relacionados
ao emprego do hidrogênio, um gás inflamável. Depois do conhecido acidente com
o dirigível Hindenburgo, esses aparelhos foram abandonados. Apenas a
partir da produção econômica de hélio, um gás incombustível, é que os
dirigíveis voltaram a ser utilizados. (
8 ) Em 4 de agosto de 1908, o Zepelin
IV, um imenso dirigível de 140 metros de comprimento e 12000 metros cúbicos
de hidrogênio, deixou o Lago Constança para uma viagem de onze horas sobre o
rio Reno. Sofreu uma primeira avaria e foi reparado. Sofreu uma segunda e
incendiou-se consumindo 650 mil francos empregados em sua construção. Uma
subscrição popular levantou cerca de seis milhões de marcos na Alemanha para
que o inventor pudesse dar seqüência a suas experiências aerostáticas, o que
aconteceu. ( 9 )
Além
de sua concepção de aeronaves semi- rígidas, Severo acreditava que os dirigíveis
deveriam voar em grandes altitudes, valendo-se da menor resistência ao avanço
e da ausência de turbulência. Severo qualificava os dirigíveis como
"navios de alto ar", vislumbrando com clareza uma tendência do
desenvolvimento ulterior da aviação. Para Severo, nas baixas camadas do
"oceano aéreo", os aparelhos encontrariam um ambiente hostil, maior
resistência ao avanço e riscos constantes à navegação, ao passo que, nas
altas camadas atmosféricas, as aeronaves fluiriam calma e suavemente para seus
destinos. Outra idéia do inventor era de que as aeronaves constituir-se-iam em
terríveis armas de guerra, a tal ponto que inibiriam as conflagrações entre
as nações. O dirigível poderia chegar sobre o inimigo "guardando por uma
nuvem que lhe serviria de manto, sem ser pressentido, e derramar, com o incêndio,
a miséria sobre um país inteiro, e diante de tal expectativa, a sabedoria
humana, a garantia de vida, o instinto de conservação do indivíduo e das nações
só têm um remédio, uma saída: o acordo fraternal". (10 )
Para o inventor brasileiro, o estado poderia financiar pesquisas. Debatendo no Congresso Nacional uma moção de congratulações a Santos Dumont, que havia ganho o prêmio Deutsch em Paris, Severo afirma que o êxito de Dumont "anima e justifica intervenção do Estado, auxiliando-o. Que construa um balão maior e que o experimente". ( 11 ) Nesse sentido, propôs, e obteve do Congresso uma verba de cem contos de réis para fomentar os trabalhos de Dumont.
Notas
(1) TAVARES, Mabel. Augusto Severo, sua vida e seus inventos. S.e., s.d. (Biblioteca da Fundação Santos Dumont).
(2) CARONE, Edgar. A República velha; evolução política, São Paulo, Difel, 1974, p. 126.
(3) WANDERLEY, Brigadeiro Nelson F. Laverne – Augusto Severo. Conferência pronunciada por ocasião da posse na cadeira n.º 7 do Instituto de Geografia e História militar do Brasil . São Paulo, Ed. pela Fundação Santos Dumont, são Paulo, 1960.
(4) CADAVAL, Ribas. Navegação aérea. Op. Cit. P. 131.
(5) BARROS, Domingos de. Aeronáutica Militar. Op. cit. p. 124
Domingos de Barros, colaborador de Augusto Severo, nasceu em Garanhus, Pernambuco, a 22 de março de 1865. Formado em farmácia, Barros fundou uma pequena fábricas de produtos químicos, incentivado por Barata Ribeiro e com a participação do professor Manuel Pereira dos Reis. No final de 1892, deu inicio a fabricação de iodo, iodofórmio e nitrato de prata.Com início da Revolta da Armada , Niterói onde se localizava a fábrica , permaneceu isolada do Rio de Janeiro por seis meses. Sem poder atingir seu principal mercado , a fábrica foi obrigada a fechar as portas . Positivista e republicano , Domingos de Barros alistou-se em um dos “batalhões patrióticos ” de Floriano Peixoto. Nesse momento , Augusto Severo necessitava de um técnico em química para a fabricação do hidrogênio necessário para a ascensão do balão “Bartholomeu de Gusmão”. Barros , engajado na guerra civil , foi enviado pelo Ministério da Guerra para trabalhar com Severo . Terminado o conflito , voltou às suas atividades civis .
(6) CAYE , Georges . Le drame du Pax et les mérites de Severo , artigo publicado em “La Revue” , Paris , 1º de junho de 1902 , e parcialmente reproduzido por BARROS , Domingos de . em Aeronáutica militar. Op. cit. p. 139.
(7) SEVERO, Augusto . Correspondência. s .l ., s . d. ( Arquivo Museu Aeroespacial do Rio de Janeiro ).
(8) Em fins do século XIX , o hélio era conhecido , mas seu custo de produção extremamente elevado , o que impedia seu emprego aeronáutico.
(9) CADAVAL , Ribas . Navegação aérea. Op. cit. p. 158 .
(10) BARROS , Domingos de. Aeronáutica militar. Op. cit . p . 158.
(11) Idem p. 159.