1880: surgem os primeiros projetos de dirigíveis
Júlio Cesar Ribeiro de Souza é o autor da primeira tentativa de desenvolver um
projeto de um dirigível no Brasil.
Nascido
em 1843, na Vila São José do Aracá, província do Pará, Júlio Cesar
matriculou-se aos 19 anos de idade, em 1862, na Escola Militar da Praia
Vermelha, no Rio de Janeiro.
Em
1875, iniciou seus estudos aeronáuticos, impressionado com o vôo planado das
grandes aves aquáticas da Amazônia. Interessado por dirigíveis,mas sem
recursos, o inventor tomou certo dia o vapor costeiro, “silenciando o seu
destino, e duas semanas mais tarde desembarcava no Cais Pharoux, sem rufor de
tambor e sem conhecer pessoa alguma na populosa na capital do Império, trazendo
apenas no bolso uma carta de recomendação para o senador Candido Mendes".
(1)
Numa
manhã de fevereiro de 1.981, o Barão de Tefé, diretor geral da Repartição
de Hidrografia, oficial da Marinha e homem de grande reputação cientifica na
Corte, recebeu uma inesperada visita do senador Candido Mendes, acompanhado
"por um cavalheiro de mediana estatura, barbicha preta bigode caído, rosto
encovado, tez macilenta, cabelos lisos em certa desordem, enfim, um tipo
provinciano".
Candido
Mendes pede que Teffé patrocine Júlio
Cesar no círculo de do Instituto Politécnico.Teffé deteve-se então na leitura das 86 páginas manuscritas da memória
sobre navegação aérea redigida pelo inventor e, bem impressionado com os
argumentos alinhavados por este, resolveu mergulhar na bibliografia aeronáutica
publicada na Europa. Depois de cerca de um mês de leituras, Teffé estava
convencido de que estava diante de um trabalho significativo e dessa forma,
conseguiu que o Instituto Politécnico
se reunisse para apreciar uma exposição de Júlio Cesar sobre seu sistema de
navegação aérea.
Desenho
explicativo do pedido de patente do dirigível Vitória,
de
Júlio César Ribeiro de Sousa, datado de 1881.
Fonte: Arquivo Nacional
O
Instituto Politécnico do Rio de Janeiro congregava engenheiros e cientistas,
professores e políticos, funcionando como uma academia. Seu campo de interesse
era muito abrangente, contando com diversas comissões técnicas, como as de,
metalurgia, máquinas, arquitetura naval, obras hidráulicas, estradas de ferro,
estradas de rodagem e outras. O Instituto representava uma referência técnica
da época, e congregava os grandes nomes da engenharia do país. manifestando-se
sobre assuntos tão diversos quanto a seca do Nordeste, o problema do saneamento
básico do Rio de Janeiro, ou a
resistência de tijolos fabricados no país.
Júlio
Cesar apresentou sua "Memória sobre navegação aérea" ao Instituto
Politécnico em março de 1881. Nela, o inventor paraense se situava entre os
partidários dos aparelhos mais leves do que o ar. Ele acreditava que um
aparelho mais pesado do que o ar somente seria viável quando o peso do motor
pudesse ser reduzido radicalmente em relação ao empuxo. O tempo confirmou
plenamente essa opinião: vinte e cinco anos mais tarde, Santos Dumont fez voar
um aparelho mais pesado do que o ar graças precisamente à evolução do motor
a explosão.
O
Instituto Politécnico aprovou então uma moção manifestando ao Governo
Imperial a conveniência de auxiliar o inventor. Graças a ela o inventor
conseguiu uma doação de 20 contos de réis da Assembléia Provincial do Pará.
Com esse dinheiro, seguiu para Paris, onde encomendou seu primeiro balão à
Casa Lachambre, batizando-o com o nome de sua esposa: Vitória.
Em 8 de novembro do mesmo ano, Lachambre lavrou uma ata, atestando o primeiro vôo do dirigível Vitória. Teria cinco metros de comprimento, a forma de um dirigível, dispondo de leme de direção mas sem propulsores. Tratava-se de um balão com certa dirigibilidade Em 12 de novembro, Júlio Cesar teria realizado uma nova experiência,mas apenas oito dias mais tarde voltou ao Pará, sem recursos mas decidido a realizar uma ascensão em seu estado natal. Logo depois, em dezembro, ele tentou realizar um vôo no Pará, mas sem sucesso: por falta de recursos para trazer as asas e o leme de direção de seu balão, havia deixado-os na França, além de elementos necessários para a produção de hidrogênio.
Em março do ano
seguinte, Júlio Cesar voltou ao Rio de Janeiro, para uma nova tentativa de
ascensão, fracassada pelos mesmos motivos daquelas realizadas no Pará. Ainda
assim o Barão de Teffé conseguiu do Parlamento uma verba de 40 contos de réis
para custear a construção de um segundo balão. Com o apoio renovado do
Instituto Politécnico, o inventor seguiu para Paris pela segunda vez, onde
construiu o balão Santa Maria de Belém. No entanto, tão logo o balão ficou
pronto,o inventor voltou para Belém do Pará, onde improvisou baterias para a
produção de hidrogênio. O resultado
se revelaria desastroso: em 12 de julho de 1884 a explosão de uma das baterias
inutilizaria o balão.
Apesar de tudo, Júlio César conseguiu a aprovação pela Assembléia Provincial de um novo auxílio de 20 contos de réis, para custear a realização de uma terceira e última experiência em Paris, onde teria voado o dirigível denominado Cruzeiro,em 1886. Logo depois o inventor voltou ao Pará, falecendo em outubro de 1887, na mais completa penúria, destino comum de muitos inventores brasileiros do século XIX.
Notas
(1)
TEFFÉ, Barão de Brasil,
berço da
ciência aeronáutica. Op.
cit. P. 26
(2)
TEFFÉ, Barão de Brasil,
berço da
ciência aeronáutica. Op.
cit. P. 101