bartholomeu de gusmão: o paradigma dos inventores brasileiros
No
principio do Século XVIII, precisamente em 1709, um jovem padre brasileiro, de
apenas 24 anos de idade, agitou a capital portuguesa com um estranho pedido de
patente: “Senhor. Diz o padre Bartholomeu de Lourenço, que ele tem descoberto
um instrumento para se andar pelo ar, e com muito mais brevidade, fazendo-lhe
muitas vezes duzentas e mais léguas por dia, no qual instrumento se poderão
levar os avisos de mais importância aos exércitos, e às terras muitos
remotas, quase ao mesmo tempo em que se resolverem, e que interessa a Vossa
Majestade muito mais que nenhum dos outros príncipes, pela maior distância dos
seus domínios, evitando-se, desta sorte, os desgovernos das conquistas, que
procedem em grande parte de chegar muito tarde as notícias delas à Vossa
Majestade (...) Com a mesma brevidade todas as praças sitiadas poderão ser
socorridas, tanto de gente quanto de munições, e viverem todo o tempo e
retirarem-se delas todas as pessoas que quiserem sem que o inimigo o possa
impedir;descobrir-se-ão as verdadeiras longitudes de todo o mundo, que por
estarem erradas nos mapas causam muitos naufrágios”. (1)
Era o
pedido de privilégio do balão, o registro da invenção do aparelho mais leve
do que o ar.
Natural
da cidade de Santos, nascido a 19 de dezembro de 1685, filho de Francisco Lourenço,
Bartholomeu tomou o sobrenome Gusmão em homenagem ao provincial dos jesuítas
no Brasil. Vinha de uma família numerosa e, de seus onze irmãos, apenas
Alexandre de Gusmão não se tornou religioso, vindo a ser diplomata da corte de
D. João V, chegando a ocupar o cargo de secretário do rei. Alexandre tornou-se
conhecido como o negociador que consolidou as fronteiras brasileiras expandidas
para oeste pelos bandeirantes, anulando o que fora disposto pelo Tratado de
Tordesilhas.(2)
D.
João V acedeu ao pedido de patente pelo alvará de 19 de abril do mesmo ano.(3)
Concedido o privilégio, o monarca português interessou-se em conhecer de perto
um invento tão formidável. Dessa forma, realizaram-se duas experiências
perante a corte e, graças a essa circunstância, o invento de Gusmão foi
objeto de diversos documentos, que comprovam sua existência e o descrevem.
Entre eles está uma carta do então núncio apostólico em Portugal ao Secretário
de Estado do Vaticano. Nela, o Cardeal Conti (que em 1721 tornou-se o Papa inocêncio
XII) afirma terem sido realizadas duas experiências na presença do rei.
Segundo o núncio, na primeira delas o engenho incendiou-se, frustando o vôo, e
na segunda o aparelho elevou-se a cerca de 40 metros do solo. O engenho é
descrito como sendo “um corpo esférico de pouco peso”. (4)
Outro
depoimento é o de Salvador Antônio Ferreira, que confirma a ocorrência de uma
primeira experiência fracassada em 3 de agosto de 1709 e descreve a segunda
tentativa, realizada a 5 de agosto: “Veio o dito padre com um meio globo de
madeira delgada, e dentro trazia um globo de papel grosso, metendo-lhe no fundo
uma tigela com fogo material, o qual subiu mais de 20 palmos e, como o fogo ia
bem acesso, começou a arder o papel subindo, e o meio globo de madeira ficou no
chão sem subir, porque ficou frustado o intento. E como o globo ia chegando ao
teto da casa, acudiram com paus dois criados da casa real, para evitar o pegar e
haver algum desastre, assistindo a tudo Sua Majestade com toda a Casa real e Várias
pessoas”. (5)
Há
também, um depoimento anônimo, registrado no códice 357 da Biblioteca de
Coimbra, que confirma as duas primeiras versões. Diz ele: “Com efeito, pôs
por obra, não logo o principal invento, mas uma amostra, a qual era uma barcaça
pequena de efeito a uma gamela coberta de lona, e com vários espíritos,
quintas essências, e outros ingredientes, meteu-lhe umas luzes por baixo, e na
sala das embaixadas, estando presente Sua Majestade e muitas mais pessoas, fez
voar a dita barcaça que a pouca altura deu pelas paredes, e na queda em que
desempenhou queimou uma cortina e tudo que encontrou foi fazendo o mesmo efeito,
e sua Majestade foi tão benigno que não se escandalizou e conservou sua graça”.(6)
Salvador
Antônio Ferreira nos dá, ainda, notícia de uma terceira experiência,
realizada a 3 de outubro de 1709, sendo que desta feita o engenho “tendo já
subido bastante altura caiu no chão sem efeito”.(7) E o núncio lembra em sua carta que o
inventor “está fabricando outro aparelho maior”. (8)
Os
documentos revelam que Bartholomeu de Gusmão concebeu e realizou ensaios com um
modelo de balão de ar quente, aplicando pela primeira vez o princípio de
Arquimedes à navegação aérea. Antecipava em 74 anos as experiências dos irmãos
Montgolfier, na França.
Imagem
fantasiosa do invento de Gusmão
muito divulgada na Europa na época
A notícia
dos experimentos de Gusmão disseminou-se rapidamente pela Europa. Antes mesmo
das tentativas de agosto de 1709, o jornal austríaco Wienrische Diarium publicou
uma estampa contendo um retrato fantástico da Passarola, como ficou
conhecido o engenho de Gusmão, e um texto que anunciava o projetado vôo do balão. No desenho, o engenho
se transformava num navio voador, com velas, asas, proa com forma de cabeça de
pássaro e
dois globos de metal, cujo vácuo seria responsável pela ascensão da aeronave.
A bordo, o inventor, verificava com um astrolábio a posição em que se
encontrava. Essa estampa difundiu-se por diversos países europeus, e em função dela diversos historiadores europeus e
norte-americanos situaram Gusmão apenas como um dos muitos precursores da longa
cadeia de evolução da aeronáutica, cujos trabalhos não possuíam nenhuma
base científica.”(9)
Gordan
afirma que:
“Hace
muy pocos años que el historiador britanico Charles H. Gibbs Smith alvó a Gusmão
del ridículo, despues de vários siglos, al presentar pruebas irrefutables de
que construyó e hizo volar um globo acionado por aire caliente, setente y tres
años antes del famoso experimento de los hermanos Montgolfier” (10)
Na
verdade, esse mérito pertence à historiografia brasileira e portuguesa. Desde
que a notícia das experiências dos irmãos Montgolfier chegou a Portugal,
houve tentativas de demonstrar a prioridade de Gusmão. O fundador dessa
historiografia foi Carvalho Figueiredo, em 1818. No Brasil, ela foi inaugurada
pelo Barão de Teffé em 1818 e tem em Taunay seu nome mais expressivo.
A
idéia de aplicar o princípio de Arquimedes à navegação aérea antecede a
Gusmão. Ela pertence ao padre jesuíta italiano Francesco de Lana Tersi, que em
1670 concebeu um engenho semelhante a uma caravela, suspenso por quatro globos
dispersos nas extremidades da nau. Tersi acreditava que, obtendo vácuo nos
globos, conseguiria força ascensional, e o movimento horizontal seria obtido
por meio de velas. A visão de bolhas de sabão elevando-se no ar teria
inspirado o jesuíta. Era pura imaginação, mas levantou a possibilidade de
aplicação do princípio de Arquimedes à navegação aérea. (11)
Após
esse ciclo inicial de experiências, Bartholomeu de Gusmão abandonou
completamente seu invento. Diversas razões parecem ter contribuído para isso,
entre elas o ambiente cultural adverso da Península Ibérica, território
dominado pelo conservadorismo radical da Contra-Reforma. Na verdade, “a instrução
cientifica não existia. Nos meados do século XVIII, não havia em toda a
Espanha um químico prático. Mais de 150 anos depois de Harvey, ainda se
desconhecia a circulação do sangue”. Em 1771, a Universidade de Salamanca se
recusara a aceitar que os descobrimentos de Newton e Descartes fossem
ministrados em seu campus por não se coadunarem com Aristóteles. Em Portugal,
os estudos universitários haviam estagnado sob a rotina teológica.
(12)
Na
Península Ibérica,o regime político absolutista e a violenta censura exercida
pelo Tribunal do Santo Ofício, a temida Inquisição, levavam a um quadro de
quase total ausência de movimento de idéias. As novas concepções eram
encaradas com reservas ou com franca desaprovação. Toda vida social estava tutelada pela Inquisição,
cujos tenebrosos autos de fé não deixavam dúvidas sobre sua disposição de
reprimir com violência toda tentativa de modificação dos valores culturais
vigentes e da ordem política e social. Diante desse ambiente adverso, é provável
que Gusmão tenha, deliberadamente, posto de lado seus trabalhos científicos.
Além disso, aos olhos leigos de uma corte dominada por uma mentalidade
anti-científica, não podiam ser encaradas como prova de verdade as experiências
realizadas com um modelo. Havia uma discrepância entre o que o pedido de
patente fazia supor imediatamente possível, e as dimensões concretas das
experiências praticadas por Gusmão diante da corte portuguesa. Os experimentos
de 1709 foram considerados fracassados.
De
qualquer maneira, o talento inventivo de Gusmão estava longe de inibir-se com
insucesso. Já no ano seguinte, ele fazia publicar em Lisboa o folheto Vários
modos de esgotar sem gente as naus que fazem água. (13) Desta
vez, Gusmão voltava-se para um problema comum, cuja resolução teria um grande
interesse para um país como Portugal, com colônias espalhadas por vários
pontos do mundo: “Assim como o comércio é a alma dos reinos e a navegação
do comércio, assim não há idéias mais úteis para o publico que as podem
servir para adiantar e segurar a navegação”.(14) Para quem apenas
um ano antes propunha algo tão avançado quanto um engenho voador, essa introdução
assemelhava-se a uma justificativa. Agora, o inventor estaria mais preocupado
com problemas de interesse prático.
Em
1713, Gusmão deixou Portugal, por razões não identificadas. Viveu na Holanda
e na França. Em Amsterdã, convivia com judeus portugueses refugados e vendia
pequenos inventos, como um aparelho para coser alimentos com luz solar. Em 1716,
estava de volta a Portugal e, em 1720, era nomeado membro da Academia Real de
História Portuguesa por D. João V. A Academia fora criada em face do interesse
da Coroa em registrar e divulgar a genealogia da Casa Real. A Gusmão coube
escrever a história do bispado do Porto, tarefa à qual se entrega até 1724,
quando é denunciado pela Inquisição e ameaçado com um processo.
Além
de alguns sermões, Gusmão deixou escrito apenas a petição da Passarola,
um folheto sobre uma máquina para esgotar água dos porões dos navios e um Manifesto
sumário para os que ignoram poder-se navegar pelo elemento do ar. No
manifesto, Gusmão busca fundamentar cientificamente seu invento, estabelecendo
uma distinção inicial entre o leigo, cujo entendimento não superaria o
conhecimento sensível, e os homens de ciência, cujo entendimento estaria
baseado na razão. Assim, “os que têm olhos no entendimento são os que, não
vendo, dão crédito àquilo que se faz visível aos olhos do discurso; e como
estes penetram as coisas pelas idéias, e aos olhos corporais as alcançam
somente pelo descostume da vista, como cegos à claridade do uso da razão.(15)
Em
1724, Gusmão foi denunciado pela Inquisição, como estando envolvido em
atividade heréticas. Na verdade, o inventor relacionava-se com um irmão de D.
João V, de quem o rei desconfiava tramar contra si. Por outro lado, havia sua
antiga tentativa de criar um engenho voador e, por fim, sua amizade com judeus.
Em setembro, Gusmão fugiu anônimo, para a Espanha, em companhia do Frei João
Alvares de Santa Maria. Mas, tão logo chegou ao território espanhol, foi
acometido de um mal súbito, cujos sintomas lembravam os de uma febre tifóide.
Em 19 de novembro de 1724, em Toledo, aos 39 anos incompletos, Bartholomeu
Lourenço de Gusmão falecia.
Algum
tempo mais tarde, frei João Alvares voltou a Portugal sendo processado pela
Inquisição. Seu arrazoado de defesa não deixa dúvidas sobre as relações
entre as experiências aeronáuticas de Gusmão e o processo que sofreu. Alvares
assegura que Gusmão enlouquecera e que se julgava o verdadeiro messias previsto
no Velho Testamento. Segundo o frei Alvares, Gusmão contaria, para pôr em
curso seus desígnios, com a execução de uma “aérea fábrica que
maquinava”, (16) graças a qual dominaria todos os reinos do mundo,
criando um império universal e governando através de um rei judeu. O
depoimento parece ter sido feito de forma a obter o perdão do tribunal,
atacando a memória do inventor, em termos que a própria Inquisição
desejaria.(17)
Bartholomeu
de Gusmão é um verdadeiro paradigma dos inventores brasileiros de fins do século
XIX e principio do século XX. Antecipou-se em 74 anos às descobertas dos irmão
Montgolfier.(18)
Não conseguiu apoio oficial ou privado para prosseguir com seus
experimentos. Suas idéias germinaram em outros países, embora sem conexão
direta com seus trabalhos, enquanto o atraso econômico, político e cultural da
península Ibérica impedia que florescessem em Portugal.
Notas
(1) ARRUDÃO, Matias. Bartholomeu Lourenço de Gusmão. São Paulo, Fundação Santos Dumont, 1959 p. 13.
(2) “Assim, o século XVIII foi o momento decisivo de definição das fronteiras entre a América portuguesa e as índias de Castela ... sobretudo na fronteira sul, a rigor a única fronteira viva, os conflitos se complicaram e agravaram por todo este período, arrastando-se para a época de crise do sistema colonial... De qualquer, já desde 1737, a ação do brigadeiro José da Silva Paes já esboçava a perspectiva que havia de ser clara e brilhantemente formulada por Alexandre de Gusmão e concretizada no tratamento de Madrid: a cessão das colônias em troca das missões jesuítas, arredondando o território, impedindo as soluções de contiguidade”.
NOVAES, Fernando A. Portugal e Brasil na crise do Antigo Sistema Colonial. Editora Hucitec, 1981, p. 50
(3)
Citado por RODRIGUES, Lysias. Brasileiro Pioneiros
do Ar. Rio de janeiro, Livraria José Olympio
Editora, 1944.
(4)
Manuscritos da Biblioteca Pública do Porto n.º 15 da Coleção do Conde de
Azevedo, fls. 520 – citado por TAUNAY, Affonso de E. em Bartholomeu
de Gusmão e a sua prioridade aerostática, São
Paulo , Imprensa Oficial, 1938. P. 106.
(5)
Idem.
(6)
Ibidem p. 104
(7)
Ibidem p. 104
(8)
Ibidem p. 190
(9)
Ibidem p. 190
(10)
Gordon, Arthur. História de la navegación aérea.
Op. cit. P. 14.
(11)
“it prepared the way for the inventoin of the ballon, wich apeears to have
been the work of another jesuit, Bartholomeu Lourenço de Gusmão”. Brooks
apresenta Gusmão como inventor do balão: “ a small hot-air model wich he sucessfuly
demonstrated before the king of Portugal on 8 August 1709”
(12)
Rui Barbosa – Conferência alusiva ao centenário
do Marquês de Pombal, em 8 de maio de 1882. Citado
por AZEVEDO, Fernando de em A Cultura brasileira
–
Editora da universidade de Brasília – Brasília, 1963. p. 371.
(13)
GUSMÃO, Bartholomeu de Obras diversas.
Op. cit.
(14)
Idem p. 203
(15)
Ibidem p. 191
Sobre
esta afirmação de Gusmão é interessante notar como a ciência às vezes avança
graças ao acaso. A penicilina por exemplo, foi descoberta graças à entrada de
um esporo do fungo penicillium por uma janela do Saint Mary´s Hospital,em
Londres, onde Fleming estudava cultura de estafilococos. A partir daí, o
cientista intuiu que o fungo produzia uma substância que estava matando a sua
colônia de bactérias. A descoberta foi um golpe de sorte, mas, como Louis Pasteur
dissera, quase um século antes, “ a sorte ajuda a mente despreparada”.
DIXON,
Bernard. Para que serve a Ciência?
São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1976, p. 20.
(16)
ARRUDÃO, Matias. Bartholomeu Lourenço de Gusmão.
Op. cit. P. 39
(17)
Benedito Calixto, um dos biógrafos de Gusmão, sustenta que o processo
movido pela Inquisição contra o inventor não teria nenhuma conexão com suas
exposições aerostáticas. Segundo ele, a Inquisição jamais se
preocupava com descobertas cientificas. Taunay endossa essa tese. Apenas uma visão
extremamente conservadora e clerical poderia negligenciar o sentido da defesa de
Frei João Alvares e tantos outros documentos.
(18)
AGUIAR, Pinto. Os precursores brasileiros da
aeronáutica. Rio de Janeiro, Civilização
Brasileira, 1975, p.35.