VENCENDO O AZUL


A HISTÓRIA DA INDÚSTRIA E TECNOLOGIA AERONÁUTICAS





A POLÊMICA NO CONGRESSO SOBRE O APOIO À PESQUISA

 

    

Em 1882, o Rio de Janeiro assistiu a uma intensa controvérsia sobre as vantagens de investimento em ciência. O Ministro da Marinha, Bento de Paula Souza, solicitara uma verba de 30 contos ao parlamento para financiar uma expedição científica com o objetivo de observar a passagem de Vênus sobre o disco solar. O interesse dessa observação era fundamentalmente científico, embora dela decorresse a possibilidade de medir com mais precisão a distância entre a Terra e o Sol e definir mais exatamente as latitudes, com benefícios para a navegação. Diversos países do mundo preparavam-se para enviar expedições e determinados pontos do globo, de onde se podia realizar a observação. Na América Latina, a Argentina, Chile e México prepararam expedições.  

Solicitada a verba, desencadeou-se no Parlamento um acirrado debate que atravessou várias semanas. Na Câmara, a oposição à concessão da verba era liderada pelo deputado Ferreira Vianna, que também se opunha à concessão de recursos para que o inventor paraense Júlio César Ribeiro de Souza construísse o dirigível Vitória que havia projetado. No Senado,a oposição à concessão de recursos para a expedição científica era liderada por Silveira da Motta. O confronto entre os defensores e os críticos da concessão dos recursos revela com nitidez o pensamento dominante das elites brasileiras, avessas à investigações sem retorno econômico imediato. Não poderia ser diferente, sendo o Parlamento ocupado primordialmente por grandes fazendeiros escravocratas. 

  

 

Em 1882, na Revista Ilustrada,
uma charge ironizava o Deputado Ferreira Vianna
que liderava na Câmara a oposição à concessão de recursos
para a realização de uma expedição científica
para a observação  da passagem de Vênus sobre o disco solar.

 Fonte: Museu Astronômico e de Ciências Afins

 

 

No Senado, Silveira da Motta revelava a essência de suas objeções ao projeto: “O povo quer outras coisas, não quer observações astronômicas (...) o povo quer estradas de ferro, quer muito café, muito fumo, muita liberdade individual, governos muito econômicos e muito moralizados (...) o povo quer tudo isto, mas não se importa com saber o que vai pelas estrelas... isto é luxo”.(1) E, indagando-se o que resultaria de benefícios para a população da expedição cientifica pretendida pela Marinha, concluía: “Senhores, é preciso que nos resignemos ao nosso papel de nação nova”. (2)

A votação foi desfavorável à expedição cientifica. Apesar disso, ela se realizou, tendo o Barão de Teffé instalado um observatório na Ilha de São Thomaz, nas Antilhas. Para atender ao desejo do Imperador, o Conselheiro Leão Velloso conseguira que dois ricos fazendeiros custeassem a missão. (3)

 

 

Em fins de 1882, o interior do pequeno observatório astronômico
construído na ilha de São Thomaz, nas Antilhas,
para a observação da passagem de Vênus.
À direita,o Barão de Teffé, responsável pela expedição.

 Fonte: Museu Astronômico e de Ciências Afins

 

Notas

(1)   SENADO IMPÉRIO DO BRASIL. 18ª legislatura. Anais. Segunda Sessão, p. 91.

 (2)   Idem p.90

 (3)   TEFFÉ, Barão de . Brasil, berço da ciência aeronáutica, Imprensa naval, 1922, p. 113.


[PRÓXIMA]