A IDéia de voar
A idéia de voar acompanha a
humanidade desde pelo menos quatro mil anos atrás. Segundo antigas lendas
chinesas, um imperador chamado Shun escapara da morte valendo-se de asas
artificiais quando, encurralado no alto da montanha pelo fogo, flutuara como um
pássaro suavemente até o solo. Os chineses tinham muitas outras lendas aéreas,
como a de Lei Kung, deus do relâmpago, que tinha asas de morcego. Mas no século
XVII a.C., um certo Ki Kung Shi foi adiante, imaginando uma carroça voadora. O
espírito inventivo humano manifestava sua intenção de dominar o ar,
empregando engenhos concebidos e fabricados pelo homem.
Em diversas culturas antigas,
encontram-se lendas que exprimem o desejo humano de superar a natureza e
conquistar o ar. Na Renascença, Leonardo da Vinci projetou um helicóptero e
modelos de paraquedas. Desde fins do século XV, surgem narrativas de vôos
planados, como o que teria sido realizado em 1490 sobre o Lago Trasimeno, pelo
matemático italiano Giovanni Danti.
Em 1638, Francis Godwin, bispo de Hereford , na Inglaterra , publicou uma obra denominada O homem na lua ou relato de uma viagem ao satélite, por Domingo Gonzáles. Por sua vez, em 1670 o padre Lana Tersi imaginou aplicar o princípio de Arquimedes à navegação aérea, concebendo uma nave suspensa por quatro globos de cobre que conteriam vácuo. Tersi vislumbrou o potencial destrutivo dos engenhos aéreos , afirmando que uma nave aérea poderia lançar pesos para destruir navios e matar suas tripulações , ou também incendiá-las .Lançando bolas de fogo e bombas, o engenho destruiria barcos e também edifícios, fortalezas e cidades .(1)
Outros autores imaginaram as
vantagens bélicas de se elevar pelo ar. Em 1726, Jonathan Swift publicava
na Irlanda As viagens de Gulliver, onde descrevia o reino de Laputa , cujo rei
governava do alto de uma ilha flutuante, suspensa por um fantástico ímã.
Todas as cidades do reino submetiam-se pelo temor de serem alvejadas de cima por
grandes pedras. E Gulliver comenta que o rei só não estendia
universalmente seus domínios pelo desacordo unânime de seus ministros, que
temiam tamanha concentração de poder . (2)
No Brasil ,os registros mais
antigos do desejo de voar datam do século XVII. Em 1625, Domingos de Loreto
Couto escreveu Desagravos do Brasil e glórias de Pernambuco, onde dava
notícia de Marcos Barbosa ,natural de Maranguape,na província da Paraíba que,
“nascendo e vivendo em lugar onde não há escolas em que se ensinem as ciências,
nem mestre com quem os naturais aprendam as artes”, era capaz de imitar “com
perfeição as obras que outros inventaram, como senão que com novos
invento lhes dá maior excelência”. E esse inventor nato, que concebera um
instrumento musical de sonoridade “muito suave e agradável aos ouvidos”,
teria imaginado também meios de voar, o que teria feito “com admiração dos
circunstantes”. Marcos Barbosa, segundo o cronista, estendia o vôo a incríveis
distâncias, o que nenhum outro homem conseguiu, cuja destreza foi vista e
admirada por muitas testemunhas que ainda hoje existem”. (3)
E outra narrativa dá conta de
Manoel Inácio Valcacer , da Vila de Igarassú , que era dotado de
“portentosa penetração para discorrer e alcançar os recônditos segredos
das ciências e artes, logrando também aquela faculdade intelectual
chamada inventiva, que se requer para novos descobrimentos”. Autodidata, a
Valcacer faltaram mestre “em cujo magistério achasse o fio de Adriadne para
sair do labirinto de suas dúvidas e perplexidades, saindo a custa de suas próprias
experiências consumada em muitas artes e ciências” . E Valcacer “subindo
com a consideração ao ar”, presumiu “ter alcançado a arte de voar;
fabricou asas à proporção de seu tamanho, e com elas conseguiu mover-se ainda
que não com tanta facilidade que passasse a muitos passos. Entendendo o pai que
o filho “ocupava o engenho em notícias inúteis, que investigar matérias que
não aproveitam, era perdimento de tempo e querer voar arriscando a
um precipício, cortou-lhe as asas para que outra vez não voasse, e por este
sucesso é geralmente conhecido pelo voador” (4)
A idéia de voar avançou
entre os brasileiros no século seguinte , na figura do padre Bartholomeu
de Gusmão que apresentou à corte portuguesa seu invento, o balão, em
1709. Cento e setenta e um anos a mais tarde, Júlio Cesar Ribeiro de Souza
apresentava seu projeto de dirigível, inaugurando uma série de balões
concebidos por brasileiros nas duas últimas décadas do século XIX .
As tentativas de desenvolvimento de pesquisas aeronáuticas, nas duas últimas décadas
dos séculos XIX, revelam dois fatos contraditórios: a existência de indivíduos
com grande capacidade inventiva contrapondo-se a um meio econômico
e cultural adverso ao desenvolvimento científico e tecnológico .
Notas
(1)
GORDON, Arthur. Historia
de la navegación aérea.
Op. cit. P. 14
(2) SWIFT, Jonathan. As viagens de Gulliver. Tradução de Octavio Mendes Cajado. São Paulo, Ed. Pela Abril Cultural 1979.
(3)
SOUZA, José Garcia de.
A
verdade sobre a história da aeronáutica.
Departamento de Imprensa e Propaganda. Rio
de Janeiro, 1944, p.491
(4)
CARVALHO. Cel. Afonso de. Qual
o primeiro brasileiro que voou?
Publicado na revista Nação Armada, nº23
de outubro de 1941, citado por SOUZA, José Garcia de. Em
a verdade sobre a história da Aeronáutica. Op. cit. P.490.