Os militares e a criação da Embraer
Em 1962 se fazia sentir nitidamente no Brasil uma tendência ao decréscimo do número de cidades atendidas pelo avião. A indústria aeronáutica mundial substituía os aparelhos convencionais por aviões a jato ou aviões turbo hélice de grande porte. A demanda da maioria absoluta das cidade em todo o interior do país não justificava o emprego desses aviões, tornando anti-econômica a operação de diversas linhas.
Por outro lado, a maioria das pistas não era asfaltada e os
aeroportos não dispunham de nenhuma infra-estrutura de auxílio à navegação,
impossibilitando a operação de aeronaves a jato. Conseqüentemente, a importação
de equipamentos super dimensionados em relação à demanda e inapropriados para
as condições brasileiras, levava ao declínio da aviação regional.
Naquele momento não havia no
mercado internacional uma aeronave que atendesse às peculiaridades brasileiras.
Dessa forma, em 1962, um grupo de oficiais engenheiros da Aeronáutica, ligados
ao Instituto de Pesquisas e Desenvolvimento do CTA, passou a advogar o projeto
de uma aeronave brasileira para atender às necessidades específicas do país,
de modo a inverter a tendência ao declínio da aviação regional. Naquele
momento, a infra-estrutura rodoviária e ferroviária situava-se
predominantemente no litoral, razão pela qual o avião se constituía num
instrumento indispensável de integração de ponderáveis parcelas do território
brasileiro aos pólos de desenvolvimento econômico e aos centros
administrativos e políticos do país.
Com essa finalidade, iniciou-se,
em 1965, o projeto do aparelho Bandeirante. A idéia do avião como instrumento
de integração nacional estava muito arraigada na Força Aérea Brasileira,
desde a implantação de novas rotas, realizado de forma pioneira pelo Correio Aéreo
Militar. Por outro lado, a idéia de integração nacional está ligada à
concepção da necessidade de ocupação real das fronteiras do país, idéia
presente em todas as Forças Armadas. Brasília, por sua vez, fora inaugurada em
1961, expressando justamente a determinação de interiorizar o desenvolvimento
de que também é símbolo a rodovia Belém - Brasília.
Em 22 de outubro de 1968, o protótipo
do Bandeirante realizou seu primeiro vôo. Em 19 de agosto de 1969, o Presidente
da República, Marechal Costa e Silva visitava o CTA presenciando um vôo do
Bandeirante. Costa e Silva determinou então que os ministros da área econômica,
além do Ministro da Aeronáutica tomassem medidas que viabilizassem a fabricação
seriada do aparelho.
Foi então criada a Empresa Brasileira de Aeronáutica – Embraer. O Ministério da Aeronáutica encomendou 80 aparelhos à empresa que instalou-se para contar com um contingente máximo de 500 funcionários, prevendo-se uma cadência de apenas dois aviões por mês. Logo em seguida, contudo, o Ministério encomendava à Embraer um conjunto de 112 aviões Xavante, nome brasileiro para um jato italiano para treinamento avançado de pilotos militares, apoio tático e ataque ao solo, que viria substituir aviões norte-americanos até então empregados pela Força Aérea na formação de pilotos de caça. Fabricado sob licença das industrias Aermacchi, o Xavante foi o primeiro jato fabricado em série no país. (1)
A Embraer nasceu dotada de um conjunto de instrumentos que garantiam o sucesso do empreendimento. A 23 de janeiro de 1970, uma portaria do Ministério da Fazenda determinava que as pessoas jurídicas poderiam deduzir 1% do imposto de renda devido, acima do teto de deduções fixado, exclusivamente na compra de ações da Embraer. Paralelamente, o Ministério da Aeronáutica adotava uma política de encomendas que gerava mercado para os produtos da Embraer. A combinação de incentivos fiscais e de compras governamentais garantiu um afluxo considerável de recursos para a empresa, permitindo o investimento em pesquisa tecnológica.
O interesse militar não explica
todas as iniciativas industriais e de desenvolvimento tecnológico realizadas no
Brasil no campo aeronáutico. Mas, certamente, é o fator mais relevante do
desenvolvimento da indústria e tecnologia aeronáuticas no Brasil.(2)
Notas
(1)
Informações de caráter geral sobre a indústria
aeronáutica brasileira. São José dos Campos,
editado pela Empresa Brasileira de Aeronáutica, 1982.
(2) “Ziman levanta dois casos em que a guerra atuou como catalisadora da inovação tecnológica: o motor a jato e a penicilina na Inglaterra. Writtle resolveu em 1935 constituir uma empresa para desenvolver o motor a jato. Até 1939 o projeto avançou lentamente, mas com o inicio da Segunda Guerra Mundial ele recebeu um considerável aporte de recursos, e, em 1942, conseguiu chegar a um modelo viável para a fabricação seriada. Na Alemanha o mesmo aconteceu, sendo que o primeiro vôo de um protótipo a jato realizou-se em agosto de 1939. Por outro lado, Fleming descobriu a penicilina em 1928, mas somente a partir de 1941 é que Florey, nos Estados Unidos, passou a desenvolver a tecnologia industrial, e precisamente em 1944, o antibiótico foi utilizado pela primeira vez em larga escala, durante a invasão da Normandia.
ZIMAN,Jonh. A força do conhecimento. São Paulo, Belo Horizonte,Editora da Universidade de São Paulo e Editora de Itatiaia, 1981, p. 199.