Os militares e o nascimento da indústria aeronáutica
A partir da Revolução de 30,
acentuou-se a participação de militares no processo de desenvolvimento da
tecnologia e da industria aeronáuticas no Brasil. Será, inclusive, de um
militar, Antonio Guedes Muniz, o projeto do primeiro avião fabricado em série
no país. Abre-se uma era de maior intervenção do Estado na economia e
de iniciativas voltadas para a industrialização, cujo marco mais evidente é a
construção da Usina Siderúrgica de Volta Redonda. A indústria aeronáutica
nasce exatamente nesse momento, confirmando essa tendência industrialista. Até
a década de 30, o desenvolvimento da tecnologia aeronáutica limitara-se a
alguns projetos isolados e sem continuidade. Os projetos chegavam, quando muito,
à fase de construção e experimentação de um protótipo. Mas em setembro de
1936 eram entregues os dois primeiros de uma série de 26 aviões Muniz M7,
inaugurando a produção seriada de aeronaves no Brasil.
Outubro de 1935. Vôo
oficial do protótipo do Muniz M7,
o primeiro avião fabricado em série no Brasil. À esquerda, Guedes Muniz.
Fonte: Museu Aeroespacial do Rio de janeiro.
Os anos 30 e a primeira metade
da década de 40 assinalam um período profícuo do desenvolvimento da
tecnologia aeronáutica no Brasil. A maioria das iniciativas industriais desse
período contaram com a participação de militares ou tiveram como finalidade
produzir para o mercado militar.
A produção seriada de aviões
teve inicio na década de 30, mas só foi possível graças à formação
anterior de recursos humanos pela Marinha e pelo Exército, desde 1914. A
disposição de ambas as forças de valerem-se do avião como arma de guerra
levou, como se viu, oficiais ao estrangeiro para realizarem cursos de engenharia
aeronáutica e estágios em indústrias aeronáuticas. O interesse de ambas era
restrito à organização e manutenção da arma da aviação. No entanto, foram
esses oficiais que haviam realizado cursos no estrangeiro os líderes dos
empreendimentos industriais encetados pelo Estado depois de 1930, como a Fábrica
do Galeão, dirigida pelo capitão da Aviação Naval Raymundo Vasconcellos de
Aboim, e a Fábrica Nacional de Motores, concebida pelo então Tenente-Coronel
Antônio Guedes Muniz, também autor do projeto do primeiro avião fabricado em
série no Brasil.
Em julho de 1931,
durante as solenidades de comunicação do 12 º aniversário da Escola de Aviação,
Getúlio Vargas voou no aparelho denominado Muniz M5, para demonstrar sua
confiança na capacidade dos técnicos brasileiros. Da esquerda para a direita,
aparecem Guedes Muniz, Getúlio, Darcy Vargas, o chefe da escola, e o piloto
Adherbal Oliveira.
Fonte: Arquivo Guedes Muniz
À iniciativa privada coube um
papel pioneiro. Os primeiros aparelhos fabricados em série no país saíram das
linhas da Companhia Nacional de Navegação Aérea, liderada por Henrique Lage.
A Marinha esteve presente nos primeiros passos da indústria aeronáutica
nacional através da Fábrica do Galeão. Suas atividades tiveram início com o
estabelecimento em 1936 de um acordo para a fabricação, sob licença, de
quatro modelos de aviões alemães, desde um pequeno aparelho destinado ao
treinamento primário de pilotos, até aeronaves para transporte de passageiros.
Dois dos quatro modelos foram efetivamente fabricados no país, com assistência
técnica da empresa alemã Focke Wulf, autora dos projetos. Posteriormente, com
o rompimento das relações diplomáticas entre o Brasil e a Alemanha nazista a
entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial, a Fábrica do Galeão passou a
produzir aparelhos de projeto norte-americano.
A Fabrica Nacional de Aviões, em Lagoa Santa, próxima a Belo Horizonte, em Minas Gerais e a Fábrica Nacional de Motores faziam parte do acordo militar Brasil - Estados Unidos que dispunha sobre a participação do Brasil no esforço de guerra contra o Eixo. As duas empresas instalaram-se contando com créditos e assistência técnica norte-americana. Lagoa Santa foi uma iniciativa dirigida por civis para a produção de aviões militares sob regime de encomendas governamentais. A fábrica chegou a montar aviões metálicos T6 de projeto norte-americano. Por sua vez, a Fábrica Nacional de Motores foi uma iniciativa estatal com a finalidade de produzir motores aeronáuticos no Brasil, sob licença e com assistência técnica da indústria Wright, norte-americana. A direção do empreendimento coube a Antônio Guedes Muniz.
Notas
(1) “No período da Segunda Guerra Mundial, apesar das dificuldades de suprimentos do exterior, ou por isso mesmo, o Governo decidiu entrar no setor da siderurgia, dando início ao investimento pioneiro de Volta Redonda, cuja entrada em funcionamento, em 1946, constituiu a primeira operação em grande escala na indústria pesada da América Latina”.
TAVARES, Maria da Conceição. Da substituição de importações ao capitalismo financeiro, Rio de Janeiro. Zahar Editores, 1974, p. 70