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Lá ia o velho DC-3. Aí surgiu
uma ponte.
Na
última viagem do avião, um problema na marginal: a ponte da Freguesia
do ó.

O
DC-3 amanheceu ontem na marginal, parado: era alto demais para
passar sob a ponte. À noite...
Suando
muito sob o sol forte, dona Maria Lucia batia o pé direito no
chão, olhava para o grande avião pousado no canteiro central da
marginal direita do Tietê, perto da ponte da Freguesia do ó (sentido
Penha-Lapa) e, com as mãos na cintura, comentava com seu sotaque
italiano:
-
Mas essa ponte é azarada mesmo. Numa cidade deste tamanho, tinha
que cair um avião logo aqui - dizia ela, lembrando os transtornos
causados por uma erosão sob a ponte, em novembro do ano passado,
e as avarias causadas na sua estrutura por dois caminhões muito
altos que não conseguiram passar sob a ponte, na semana passada.
Mas
nenhum dos milhares de curiosos que causaram congestionamentos
de até dois quilômetros ao longo da marginal, na manhã de ontem,
conseguiu acertar o motivo da presença do avião em local tão inesperado.
E uma expressão decepcionada se formava nos rostos quando alguém
Informava que não se tratava de queda, pouso de emergência, acidente
com o piloto ou qualquer outra "tragédia".
O
velho Douglas DC-3, que pertenceu à Vasp, estava realizando sua
última viagem, impossível de ser feita pelo ar: ele saiu do Campo
de Marte, na madrugada de ontem, em direção à Fundação Museu de
Tecnologia de São Paulo, ao qual foi doado, e cuja sede - em fase
de conclusão - fica na marginal do Pinheiros, perto da Cidade
Universitária.
Para
poder ser transportado, o DC-3 teve suas asas, hélices e parte
dos lemes desmontados e colocados sobre uma carreta, que deveria
rebocar o avião seguindo pelas avenidas Santos Dumont, Olavo Fontoura,
Brás Leme e marginal do Tietê, passando depois para a marginal
do Pinheiros. Nas duas primeiras pontes - Casa Verde e Limão -
não houve proble-mas para a passagem do avião, e o motorista da
carreta imaginou que tudo Iria bem nas outras. Mas, ao chegar
à Ponte da Freguesia do ó, a altura de 4,20 m não foi suficiente,
apesar das multas manobras e tentativas.
A
esta altura o dia estava quase amanhecendo, e não seria possível
solucionar o problema em tempo suficiente para não prejudicar
o trânsito da manhã. Por isso, decidiram deixar o DC-3 no canteiro
da marginal até a noite de ontem, quando seria mais viável prosseguir
na travessia. 0 avião passou pela ponte por volta das 23 horas:
seus pneus foram parcialmente esvaziados, sua cauda puxada para
baixo, e assim ele atravessou o obstáculo e prosseguiu a viagem.
Segundo
explicou o ajudante prático da Vasp, Antonio Rodrigues, que acompanhou
a viagem, essa decisão foi tomada porque não haveria tempo de
contornar a ponte da Freguesia do ó através da via de trânsito
local paralela à marginal, antes do início do tráfego matinal
intenso: -0 trânsito ficaria muito prejudicado, porque o avião
ocuparia as três faixas da via local.
Assim,
a cidade amanheceu com a grande aeronave no meio da marginal,
como se ali tivesse pousado. Os sonolentos motoristas arregalavam
os olhos diante do avião, sem entender o que acontecia, e os guardas
do DSV requisitados para acelerar o tráfego e acompanhar a operação
tiveram muito trabalho.
Além
das freadas bruscas, e tentativas de estacionar na própria via
expressa, alguns motoristas muito curiosos, como não conseguiam
ver direito, começaram a sair da marginal, estacionaram nas ruas
por perto e voltaram a pé, para saber o que acontecia. Nesse caminho,
juntavam-se a eles centenas de moradores das imediações, que ouviram
falar do avião - a notícia correu rápida, com muitas versões:
alguns diziam que o avião tinha caído; outros falavam em pane
e pouso forçado; outros, ainda, diziam que era uma exposição pública
gratuita para a população.
Para
chegar perto do aparelho, as pessoas - especialmente as crianças
- arriscavam-se no trânsito intenso da marginal. Isso levou os
engenheiros do DSV a decidir retirar o aparelho do canteiro, guinchando-o
até a rua Celestino Euclides Macha-do, uma travessa da marginal
perto da ponte da Freguesia do ó.
O
guincho chegou às 13 horas, e vários funcionários da Vasp, que
foram chamados ao local ajudaram a colocar o avião de frente para
a rua Celestino Euclides Machado. Em seguida, a pista local foi
Interditada por alguns minutos, enquanto era feita a travessia.
Mas a curiosidade da população mudou de lugar junto com o avião.
Durante a tarde, a via expressa apresentava bom trânsito, mas
a via local ficou bastante congestionada. As próprias cancelas
colocadas pelo DSV para interditar a entrada da rua chamaram ainda
mais a atenção dos motoristas, e muitos estacionaram nas proximidades.
Calças
desbotadas, sandálias de sola muito gasta, o senhor Antônio Carlos
Freitas Sampaio chegou cansado à rua Celesti-no Euclides Machado.
Ele veio a pé da Lapa, só para ver o avião, e saiu bastante aborrecido
com um funcionário da Vasp, que resolveu "gozá-lo": vendo que
Antônio Carlos pensava tratar-se de um acidente, o funcionário
contou-lhe uma história fantástica sobre um piloto que "fez uma
manobra muito difícil, conseguiu pousar o avião aqui e saltou
por aquele buraco (apontou a porta), fraturou o crânio e quebrou
uma perna".
0
jovem feirante Severino Gonçalves da Silva estava descansando
em sua casa no Moinho Velho, depois do almoço, quando viu uma
reportagem sobre o avião, na televisão. Não teve dúvidas: calçou
os sapatos e andou meia hora a pé, para ver o aparelho. - Ele
é tão bonito... eu nunca tinha visto um de perto.
O
DC-3 que despertou a admiração dos paulistanos é um aparelho de
multas histórias. Desenvolvido para o transporte das tropas aliadas
durante a II Guerra Mundial, o DC-3 foi muito usado pela Vasp
quando as hostilidades entre os países impediram a reposição das
peças necessárias à frota usada até então, composta por aviões
alemães Junkers .
Com
capacidade para 28 passageiros, o bimotor foi o responsável pela
abertura das principais rotas aéreas no inte-rior do Brasil. 0
DC-3 que estava ontem na marginal prestou serviços à Força Aérea
Norte-Americana durante a guerra, sob o número 45-1018. Foi incorporado
à Vasp em janeiro de 1946, com o prefixo PP-SPO, e batizado com
o nome de Caparaó.
Quando
os Visconts e, posteriormente, os Boeings entra-ram em operação
, o Caparaó foi desativado, junto com outros DC-3, e doado à Fundação
Projeto Rondon, em julho de 1974, passando a transportar estudantes
por todo o Brasil. Em 1975 mudou de prefixo, passando para o atual
- PT-KUB -, e recentemente foi desativado pelo Projeto Rondon,
sendo nova-mente doado, desta vez para a Fundação Museu de Tecnologia
de São Paulo.
O
velho Caparaó, no entanto, ainda pode voar, Segundo explicou o
presidente da Fundação Museu de Tecnologia, Francisco de Paula
Machado de Campos, ele veio do campo dos Afonsos, no Rio de Janeiro,
onde se encontrava, até o Campo de Marte, voando com seus próprios
motores, há dois meses.
Rachel
Melamet
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